Tuesday, August 16, 2011

Londres

Fui para Londres com a British Airways num voo nocturno e lembro-me de pensar que estava com medo de estar dentro de avião (como de costume) e que estava finalmente a ir em direcção ao sonho. Sentia borboletas no estômago e para me distrair fixava o olhar no painel que mostrava a rota por onde seguia o aparelho ou fingia ler a revista de fofocas que comprara no aeroporto da Portela.

Foi uma viagem dolorosa no sentido em que questionava-me o que sentiria, o que faria no país dos meus sonhos. E confesso não estar em mim quando pisei o famoso aeroporto de Heathrow e vi a minha queria amiga de há tantos anos à minha espera. Doente, mas de braços abertos para me abraçar, após quase dois anos de saudade.

Estava um frio de rachar. Sou amante do frio mas as baixas temperaturas inglesas fazem chorar as pedras da calçada e ao sair do aeroporto, o meu corpo e os meus ossos sacudiram numa espécie de orgasmo sobrenatural. As minhas primeiras impressões de Londres são nocturnas, cidade industrial, fria, densa.

Fiquei hospedada em Kilburn, bairro tipicamente inglês, recortado por árvores nuas e pacato, pelo menos até chegarmos à área de comércio. Ruas limpas. Pessoas vindas de todo o mundo. Alimentos coloridos e globais.

Deixei-me impressionar pela educação extraordinária dos britânicos. Não raras vezes ouvia excuse me, please, thank you, do you need help. Recordo o dia em que subia as escadas do metro carregada com a mala e fui abordada por um homem que me disse: "here, let me help you with that." O meu coração encheu-se de gratidão e sem pestanejar, entreguei a mala. Tivesse sido em Luanda e entregar a minha mala estaria fora de questão por causa da ladroagem. Tivesse sido em Lisboa e tal não teria acontecido, como pude comprovar duas semanas mais tarde.

Certa vez estava eu no supermercado e pus-me na fila para pagar numa das quatro caixas mas fiz um movimento qualquer que levou uma das funcionárias a dizer-me "miss, get back in the line, please." Respondi que estava na fila sem intenções de passar à frente fosse de quem fosse. Sou uma rapariga civilizada e gosto de respeitar o próximo, ao contrário do que se vê em Angola, nesta Angola tão maltratada e tão cheia de gente sem respeito pelos outros.

Bom, mas fiquei impressionada pela forma como se respeita o limite dos outros, como se organizam. Além disso, fui super bem recebida. Fui bem tratada nos autocarros, nas lojas (tirando aquelas geridas por indianos), nos restaurantes e nos bares.

Não explorei a cidade tão bem como gostaria, mas isso dá-me um bom pretexto para lá voltar. Não fiz tours pelos museus. Fui apenas visitar o Museu Victoria e Albert que apresentava na altura uma exposição riquíssima sobre a Ásia, fui ao Modern Tate onde caiu-me a alma ao chão ao ver uma obra de Diego Rivera (eterno amor de Frida Khalo). Vi a famosa Ponte de Londres e ao longe a sinistra Torre de Londres onde vivem fantasmas que deixaram este mundo sem tempo para orações. E claro, passeei o corpo por Picadilly Circus, pelo Soho, por Camden e ainda houve tempo para me encostar às grades do Palácio de Buckingham.

Mas o frio, senhores. O frio. Tive dias em que a mera hipótese de sair da quentura da casa climatizada era mais forte que a possibilidade de enfrentar o gelo que se sentia na rua. Ou que enfrentar a chuva miudinha que caía sem parar. Mas regra geral obrigava-me a sair pois que estava na terra dos meus sonhos e tinha de aproveitar.

Saí poucas vezes à noite mas entrei rápido na tradição inglesa do happy hour. Beber o máximo possível entre as 18h e as 20h que é quando a pinga está bem mais barata (tudo é caro na Londónia). Na minha última semana era essa a vida que eu levava. Misturar-me com os ingleses e a estrangeirada local e beber, não até cair, mas até estar com um sorriso de orelha a orelha. E entretanto aproveitava para falar com os estranhos que me aparecessem. Nunca me calhou um puro britânico. Eram egípcios, turcos, espanhóis e sei lá mais o quê. Crivava-os de perguntas: de onde vens, há quanto tempo cá estás, curtes morar aqui, planeias regressar ao teu país e blá blá blá. Perguntava por genuíno interesse. Queria saber as suas impressões da cidade e geralmente eram homens que eu abordava, mesmo correndo o risco de acharem que me estava a fazer à febra. Era mais fácil, sabem? Tinham mais abertura que as mulheres ou então sei lá, prefiro falar com homens.

Além de Londres, conheci a cidade de Bristol. Comparada com a capital é uma aldeia, mas ainda assim movimentada e com bares e restaurantes quanto baste. Bristol tem imensas universidades e por isso a maior parte da população é jovem. Ao contrário da Londónia, não se vêem muitos estrangeiros. Gostei da cidade e menos do frio que era bem mais agressivo. Para terem uma ideia, quando lá cheguei por volta das 21h, estavam menos de 10 graus.

Não posso dizer que apaixonei-me por Londres. Mas sentia-me atraída pela mistura de gente. Entrar no autocarro era como entrar no edifício das ONU. Gente de todas as raças, cada um falando a sua língua. E é disso que eu gosto. De uma cidade sem fronteiras, situada num mundo que se rege por fronteiras.

Paris

Viajei para a Europa em Janeiro deste ano a pretexto de um casamento. Tive que dividir bem o tempo: 15 dias em Lisboa, 15 dias em Londres e 3 dias em Paris. Mas na prática foram 15 dias em Lisboa, 20 dias em Londres (porque perdi o avião de regresso, sei lá, devia ser o subconsciente a dar-me a dica) e os 3 dias em Paris foram seguidos à risca.

Vou começar por esta última cidade. Paris, para quem está de férias, é o que se imagina, o que se vê nos filmes. É cidade antiga marcada por histórias seculares estampadas em cartões postais como o Louvre, a Basílica do Sacre-Coeur, a Torre Eiffel, Versailles e por aí fora.

Não é uma cidade opressiva, é aberta, melancólica. Para lá chegar cumpri o desejo ardente de viajar naquela maravilha da engenharia que dá pelo nome de TGV (Train à Grande Vitesse), o comboio espacial que rasga o Canal da Mancha a toda a velocidade (320 km/h). Graças ao comboio é possível fazer a rota Londres/Paris com comodidade, apreciar a transição da paisagem quando se entra num dos países e sai mais barato que o avião.

Lá chegada esperava-me o meu amigo francês que não via há dois anos. Assim que ultrapassámos a parte dos abraços, dos beijos, do ça va bien e da mala atirada para o quarto da pensão onde me instalei em Montmartre, fomos para a famosa Champs Elysée almoçar e lá vi gente de todas as cores e feitios, mas sem a homogeneidade que se vê em Londres. Fazia frio com sol e não pude evitar pensar que era uma sortuda do caraças por estar ali.

3 dias não são suficientes para conhecer Paris mas deu-me tempo para ver de perto o ex-líbris da cidade, ou seja a Torre Eiffel, para apreciar as margens do rio Sena e ver as casas flutuantes, passear por Montmartre e ver a Basílica do Sacre Coeur que fica nas imediações, apreciar o Arco do Triunfo com a sua homenagem aos que já partiram deste mundo e acima de tudo, realizar o sonho de flanar pelo Jardim das Tulherias e emocionar-me com a nobreza e com o peso histórico do Museu do Louvre.

É preciso que saibam que a História da França sempre me fascinou, então estar físicamente a passear pelo maravilhoso Jardim das Tulherias e respectivo Palácio e contemplar o Louvre enquanto absorvia a réstia de energia de tempos passados, foi como se tivesse nascido de novo. Espero que os franceses saibam a sorte que têm por terem tantos símbolos históricos. Parece incrível mas o meu amigo francês nunca lá pôs os pés!

Gostei muito da cidade e não tenho pontos negativos. A única chatice com que me deparei foi com o facto de ninguém naquela terra falar inglês, especialmente os jovens. Para comunicar, especialmente porque passei o segundo e terceiro dias sozinha, tive de ir buscar o palavreado que aprendi na escola, enferrujado pela falta de uso, mas bom o suficiente para me fazer entender e para entender os locais. Todos bastante simpáticos, especialmente quando viam que me esforçava para falar a língua deles.

Paris foi um desafio para mim em certo aspecto. Andei sozinha pela cidade, de autocarro e de metro - as estações de metro são horríveis, nada comparáveis às da minha Lisboa que são obras de arte - sem medo e satisfeita com a minha própria companhia, embora ligeiramente aborrecida por vezes. Cheguei à conclusão que não é assim tão mau, estar sozinha numa cidade estranha.

A cidade fez-me lembrar Lisboa graças às ruas calcetadas, às ladeiras, à antiguidade. Mas as semelhanças cessam por aí por motivos óbvios e que nem vou enumerar.

Gostava de regressar um dia à cidade-luz, mas por mais tempo e com mais dinheiro no bolso, pois a capital da França é bastante dispendiosa. Ficou muita coisa por ver, mas o que vi encheu-me as medidas.

Tuesday, December 14, 2010

Na colheita

O ano está a findar. É inevitável o balanço anual. Na realidade, nunca fui muito de fazer balanços. Creio que por achar que todos os anos eram iguais. Talvez estivesse a ser injusta comigo mesma, não sei. Sei que este ano, foi um ano estupendo. E ocorre-me que provavelmente, os outros anos pareciam-me iguais porque eram tempos de semeadura. Semeei muito, diga-se de passagem e este ano, este ano par, foi tal como disse, estupendo. Foram meses de pura colheita ou de conquista se preferirem.
Arranjei a minha casa e é lá finalmente o meu refúgio, desta cidade que me consome a mil à hora, pese o facto de eu viver isolada, distante do fervilhar social que em nada me atrai. A minha casa é maravilhosa. O ar flui, a energia desliza sem barreiras. E o meu quarto é o supra sumo da minha toca onde descanso os ossos, sosssego a alma e sonho sem parar.
Este ano viajei. Foi o ano onde os meus horizontes se abriram em catadupa sem qualquer controlo da minha parte. Estive no Brasil, país irmão, quente e acolhedor. Não me vejo a morar lá, mas senti-me em casa. Não sei se porque a língua é a mesma ou se porque o povo que habita aquela terra é hospitaleiro até às margens.
Estive também no Chile onde em cinco frenéticos dias conheci gente de todo o mundo. E onde fiz amigos, espero eu, para o resto da vida, ainda que a distância pareça assustadora.
Nestes doze meses, evoluí muito como tradutora, embora não tenha qualquer licenciatura na área. E graças a este facto, descobri finalmente o que quero fazer da minha vida. Sim, 34 anos depois, encontrei o meu rumo e embora me encontre a tremer de medo por querer seguir o meu caminho, a descoberta deixou-me e deixa-me em estado em êxtase.
E para rematar, daqui a um mês regressarei a casa por um mês. E anseio por estar novamente com os meus amados amigos à volta de uma mesa, de cerveja na mão e cigarro na boca e com a alma relaxada e disponível.
Foi um ótimo ano e sei lá eu se alguma vez tive um ano tão formidável como este. Para o próximo ano, não planeio nada. Gostava que fosse tão maravilhoso como este foi, mas deixarei isso a cuidado do Universo. Confio-lhe os caminhos da minha vida e o que tiver de ser, será!
Shalom.

A vida a cores


Wednesday, December 8, 2010

Adieu mon chérie

Acho que comecei a dizer adeus ao G. quando ainda me encontrava no Brasil e o estado sublime em que me encontrava por estar de férias, amorteceu em muito, o choque que senti quando ele disse-me que estava apaixonado por outra mulher. E parecia que ela sentia o mesmo, mas ao melhor estilo de Romeu e Julieta (porque com ele as coisas são sempre difíceis), ambos negaram o amor e tentaram seguir caminho.
Passado um ano a tentar conquistá-lo, a ser-lhe leal e amiga, esta informação só não me deu cabo do espírito porque tal como disse, estava de férias. O que não me impediu de soltar meia dúzia de lágrimas e de desabafar no colo da minha querida amiga Isabella. Eu, sem saber, dizia-lhe adeus de cada vez que ia para a varanda contemplar o céu do Recife enquanto fumava um cigarro, companheiro das horas boas e más. Trocámos meia dúzia de emails. Cada um expressou-se como pôde. Eu, amargamente e ele, dócil como um cãozinho orfão. Sempre dócil e educado.
Levei as coisas com calma e confesso que dramatizei um pouco. Sou mulher e pertenço ao signo balança o que dá uma mistura muito pouco sensata. Voltei para Angola sem responder ao último email que ele me enviou em que se bem me recordo, enaltecia as valorosas propriedades da amizade.
Regressei e tentei ignorá-lo. Ignorei o quanto pude mas as saudades pregaram-me uma valente rasteira e assim que amansei o coração, voltei às boas com ele. Andávamos nas nuvens e as palavras que mais utilizávamos eram: amizade, contente, feliz e saudades. Mas depois, aconteceu alguma coisa que eu desconheço qual seja e ele desapareceu. Foi de férias para uma aldeia qualquer do país dele e desapareceu. Mandei email porque não estava habituada a tanto tempo de ausência virtual. Respondeu-me dócilmente como sempre, prometendo que falaríamos em breve. E passaram-se quase três ou quatro meses. Ás vezes metia conversa com ele no messenger mas pouco falávamos porque estava sempre ocupado e deixámos de trocar palavras no facebook. Pensei cá para mim que devia estar mesmo ocupado com alguma coisa. Ás tantas lá me apercebi que era sempre eu a ir ter com ele. A puxar assunto. A chegar-me à frente para matar saudades. E às tantas vi na página dele do facebook que andava a conversar com uma tipa qualquer da América Latina. Tinha tempo para falar com ela, pelos vistos.
Azedei. Azedei e cortei-o de todos os meus contactos sem lhe dizer palavra. Tentei ser racional e manter a amizade for the sake of the universe e também para mostrar alguma maturidade mas, às tantas apercebi-me que ele não me trazia nada de novo. E a amizade era recente e tinha começado a partir de uma curiosidade mulher/homem, mútua. Então, a lógica disse-me que ao bloqueá-lo nada tinha a perder.
Ás vezes sinto saudades das nossas conversas e o primeiro impulso que tenho é de o recuperar e voltar às boas mas depois lembro-me dos motivos de o ter banido. E chego à conclusão que o faria movida pela estúpida esperança e para que as palavras gentis dele, me acariciassem o ego, pois que ele sempre me disse que considerava a minha amizade inestimável.
Os pensamentos já deixaram de me levar ao G. com frequência. Mas se por acaso acontece, entro em conflito perguntando-me se fui sábia em ter banido uma pessoa de boa índole como ele. Se fiz bem em bater-lhe com a porta na cara. Depois acalmo-me e deixo de sentir culpa.
Mereço mais e melhor, embora ainda não saiba onde encontrar mais e melhor. Fiz-lhe o luto e embora ainda esteja a ressacar desta relação platónica, desejo-lhe felicidades. Se um dia tivermos de nos encontrar - sem se que seja apenas em sonhos - muito bem.
Por cá estarei sem procurar ninguém. Vou antes deixar que me encontrem. Quem sabe assim terei o que mereço e o que preciso sem que saiba exactamente o que isso possa ser.

Tuesday, November 16, 2010

Partir exige um dilaceramento que arranca uma parte do corpo à parte que permanece aderente à margem do nascimento, à vizinhança do parentesco, à casa e à aldeia dos utilizadores, à cultura da língua e à rigidez dos hábitos. Quem não se mexe nada aprende. Sim, parte, divide-te em partes. Teus semelhantes talvez te condenem como um irmão desgarrado. Eras único e referenciado. Tornar-te-ás vários, às vezes incoerente como o universo que, no início, explodiu, diz-se, com enorme estrondo. Parte, e tudo então começa, pelo menos a tua explosão em mundos à parte. Tudo começa por este nada. Nenhum aprendizado dispensa a viagem.

Michel Serres

Monday, November 8, 2010

Reflexões. Conclusões. Dúvidas.

Há pouco escrevi um texto sobre "partir", sobre o que significa para mim este verbo. E no meio do frenesim dos meus dedos a baterem no teclado, de ideias soltas e de conclusões há muito definidas, cheguei a um novelo concreto que me fez perceber porque quero tanto deixar Angola. Existem outros motivos além da minha total falta de afinidade com o país e com as gentes.
Percebi que quero partir para redescobrir-me. Preciso saber quem é a Clara dos trinta e quatro anos. Cheguei com vinte e sete anos e apesar da vida socialmente limitada que levo, experienciei muitas coisas, vi e constatei uma série de factos, uns mais agradáveis que outros e realizei algumas conquistas que me fizeram ver do que sou capaz. Aprendi a não estagnar, a ser franca com os outros ainda que doa e percebi claramente o que não quero para mim. Estou mais una, madura. Sete anos volvidos, penso ser a altura ideal para me voltar a atirar no mundo. E será um novo mundo porque sou em parte uma nova mulher, um novo ser. Um pouco mais completa, mais dona de mim. Não engulo mais sapos. Só faço o que quero. E digo o que me apetece.
Viajei por alguns países e conheci gente nova. Aprendi a dominar a internet a meu favor ou se preferirem, a favor da minha inteligência que está mais afiada do que nunca. Ganhei novas percepções e mais do que nunca sei que o mundo é um horror. Repleto de almas escuras, de calamidades, de pesadelos dominados por monstros de garras afiadas. Mas também sei que o mundo, que este planeta onde habitamos pode ser belo e cheio de gente pronta para nos acolher. Também sei que consoante a minha fé (que muito oscila) terei oportunidades que saberei agarrar. E sei também que depois do desespero vem a esperança. O mundo é uma montanha por conquistar e a minha vontade é soberana.
Chego aos trinta e quatro anos mais estável do que nunca. Caminho sem redes. Sei de onde vim, por onde passei e sei onde quero estar no futuro. Os meus planos não são lineares. Encontrarei imprevistos dolorosos e curiosos pelo caminho e irei sofrer e duvidar de mim. Mas aqui dentro, dentro de mim, do meu coração e da minha cabeça, reside a vontade de dar um salto de fé. A fé em mim e na vida.
Curioso. Hoje a meio da noite acordei com medo. A minha mente viajou em fracções de segundos para a nova vida que quero levar e o meu corpo tremeu. Tremeu de dúvidas e medos. Tremeu com a ideia de enfrentar novos desafios e lembro-me de perguntar a mim mesma, se seria uma decisão sensata. Largar a estabilidade e atirar-me sem asas. Depois voltei a adormecer.
E agora eis-me aqui. A escrever precisamente o contrário. Sou una mas tenho dúvidas e apesar de tudo falta-me a coragem. Ainda...
Mas no meio de tantas dúvidas uma coisa sei ao certo. Ficar em Angola para o resto da vida, está fora de questão. Sinto a alma a reclamar por mais espaço.

Ir


Partir

Partir. Este verbo está sempre presente na minha cabeça. Partir. Gosto da ideia. Gosto de o saber aqui, dentro de mim. Partir para nunca mais voltar ou partir para voltar um dia, quem sabe? Partir pelo simples prazer de ir sem remos, asas ou sonhos.
Partir porque a mala roxa debaixo da cama não me permite olvidar o verbo partir. Verbo íntimo que me abraça em sonhos relaxados onde o peso da realidade não existe. Partir sem destino, aconchegos ou medos. Partir porque sim. Partir porque a alma não cabe neste espaço onde se encontra. Partir para ser livre. Livre, talvez para sofrer angústias passadas. Partir para ir de encontro à estagnação, ao pesadelo poético de uma vida tecida em fios tão finos como os sonhos.
Sim, gosto do verbo partir. De me saber sem amarras emocionais que são as que mais limitam o ser humano mas não a mim. Partir numa jangada de madeira, num avião pesadelo. Partir em busca do que foi ou melhor ainda, partir em busca do novo. Partir para descobrir quem sou após tantas experiências, tanta estabilidade e tanta idade. Partir rumo ao futuro. Rumo ao futuro e a mim mesma. E é só por isso que quero partir.

Direcções


Friday, October 29, 2010

The logical song

"There are times when all the world is asleep, the questions run so deep for such a simple mind. Won´t you please...please tell me what´s with love? I know it sounds absurd, please tell me who I am."
Supertramp

I just lost a litle faith...

Um destes dias, a minha companheira de casa aka prima querida apanhou-me a ouvir a música "All by myself" na voz da Céline Dion. Ficou espantada a prima e logo me disse que não estava nada à espera de ouvir tal som a sair do meu computador. Mas sabem o que é? Já tenho 34 anos no lombo e continuo all by myself. Ando ensarilhada para encontrar o tal do amor que dizem fazer maravilhas à pele, ao coração e a outros orgãos que tais. De maneira que a música cabe em mim como uma luva.
Ando preocupada com a solidão. E mais preocupada ainda porque até gosto. E não gosto. Ás vezes penso que se calhar dava-me jeito ter um amiguinho que me aquecesse os pés no cacimbo ou que me levasse a jantar ou ao cinema. Ou até quem sabe, caramba, que me levasse a escalar os Alpes. Dava jeito sabem? Até para calar as más línguas que me dizem encalhada, tia e outros adjectivos perniciosos e maus para a moral. Eu, que sou uma rapariga jeitosa, inteligente, bem humorada, trabalhadora e bem...casadoira..cof cof.
Já fui super romântica e acreditem cheguei a acreditar no tal do amor, mas as desilusões, os sapos que beijei pelo caminho e ui ui foram imensos, levaram-me com jeitinho para as ruas escuras da amargura e do cinismo.
De maneira que quando com a armadura em baixo, dá-me para voltar a acreditar e ter fé. "A arte de viver da fé só não se sabe fé em quê", já cantavam os Paralamas do Sucesso.
Só que essa fé, a fé de acreditar no amor, de acreditar que existe a tampa para a minha panela (expressão à la século 20) vem com força e com mais força ainda se vai.
Pronto, sou uma desgarrada, uma sem fé. Mas o que querem? O amor raramente bate à minha porta. E quando acho que me aparece uma oportunidade, zás! Beijo na boca e o sapo aparece mais rápido que brotoejas em dias de 40 graus.
Eu sei bem o que é ficar presa na tristeza e amargura de um amor perdido. Aquele tipo de amor que nos faz ter vontade de amar até à velhice. Sei bem o que é ficar de cama. Qual doente profundamente incapacitado. Incapacitado demais para sair da cama e fazer coisas básicas como tomar banho, comer, lavar os dentes...
É uma dor na alma que atinge o corpo. É um vendaval de dúvidas, de sofrimento e de esperança mal-amanhada. De noites sem dormir. Cheguei a empapar almofadas de tanto chorar. Portanto perdoem-me por ser descrente, cínica e infeliz emocionalmente. Vejam bem, a culpa não é minha. É principalmente do T. e de mais dois ou três vândalos. A culpa é deles. E apenas 1% minha por não me terem ensinado a amar como mulher adulta. Para que é que me deram o doce? Para retalhar-me o coração em seguida? Malandros.
Mas quem sabe um dia? Como canta a minha amada Tracy Chapman: "I just lost a litle faith when you broke my heart. Given a chance I might try again. I would risk it all this time. I´d save litle love for myself. Enough for my heart to mend. Because one day I just might love again. One day some sweet smile might turn my head. One day..."
O meu amigo M. gosta de chamar-me Pingo de Mel. Nem sei porquê. Ele sabe que de docinha não tenho nada. Que o digam alguns dos meus colegas de trabalho que às vezes me dizem: "Porra, com esse teu feitio esquentado não admira que ainda não tenhas casado." Barfeeeeeee. Parvos!
Tenho 34 anos e o meu coração continua tão vagabundo como quando tinha 24 anos.

O Paulinho Cascavel

O pensamento hoje levou-me hoje ao Paulinho Cascavel. O Paulinho Cascavel (alcunha) era meu colega da secundária. Deveríamos ter na altura uns 14 ou 15 anos. Morávamos ao pé um do outro. Não me lembro do dia em que engatámos amizade. Se foi no recreio, em plena aula ou se foi pelo caminho que percorríamos para chegar a casa ou à escola. Sei que a partir do dia em que demos conta da existência um do outro, passámos a ir juntos para a escola.
Ele tinha de passar pelo meu prédio para seguir caminho, então todos os dias esperava por ele, à janela daquele terceiro andar que tanto sofrimento me trouxe, para irmos para as aulas. Não sei quais eram os temas das nossas conversas mas eu gostava muito da companhia dele e tenho a certeza que ele gostava da minha. É curioso como esse tempo parece pertencer a uma outra vida. Como não me consigo visualizar fisicamente e como não recordo as conversas que tinha com os amigos dessa época. Gabo-me de ter boa memória mas muita coisa daqueles anos malditos, desapareceram como pó levado pelo vento quente.
O Paulinho Cascavel tinha essa alcunha porque adorava jogar futebol. Lembro-me de ouvir o meu primo dizer que o Paulinho era um fuçanga com a bola. Parece que ainda vejo a casa dele. Dava para ver da varanda do meu quarto. E parece que ainda o vejo hoje: magro, cabelo liso, olhos castanho vivos.
Reencontrei-o anos depois no autocarro. Ele reconheceu-me. Sentei-me ao pé dele e conversámos como se o tempo não tivesse passado. Também não me lembro da conversa. Só lembro-me de nos encontrarmos e de parecer que o tempo tinha voltado atrás.
Ás vezes o Paulinho vem-me à memória e penso muitas vezes em ir bater à porta da casa dele. Ou de voltar à varanda do meu antigo quarto e olhar indeterminadamente para a casa que o abrigou durante tantos anos.
Não sei nada do Paulinho Cascavel. Se está vivo. Se emigrou. Se é feliz. Ou se lembra-se de mim também e se como eu, pensa em mim com carinho.
Há pessoas de quem gostamos e que não se mantêm na nossa vida. E eu acho isso triste...sim...

Wednesday, October 20, 2010

No dia a dia

Então é assim: a meio desta vida aqui na terra dos doidos e da sujeira, decidi deixar-me de merdas e enfrentar os famosos candongueiros. Enfrentei com relativa facilidade visto que o percurso que faço da minha casa até ao escritório ser bastante curto. 5 minutos num dia sem trânsito, ou seja quase nunca. Acho que foi uma boa decisão minha porque a bem ou a mal acabo por absorver mais sobre a cultura nacional. Seja a nível musical, o que significa que de vez em quando tenho de ouvir kuduro com letras bastante criativas como "tremura tremura", ou "cheira a xixi" (acreditem se quiserem). De vez em quando apanho alguns motoristas com gostos mais sensatos que se ficam pela bela voz da Yola Semedo ou pelas letras simpáticas do Anselmo Ralph. E certa vez, pasmem-se, apanhei um motorista que ouvia Lena D´Água (cantora portuguesa) a trinar o velho refrão "sempre que o amor me quiser."
A música é uma forma de me aculturar indirectamente mas as conversas são a obra-prima do aculturamento involuntário. Ontem saí de casa às 9h30 e estava de chuva. Resultado: trânsito infernal o que fez com que o motorista de serviço fizesse uma rota diferente para chegar ao destino. O cobrador perguntou-me se estava bem assim. Eu sacudi os ombros em jeito de assentimento e acrescentei, "desde que aí o mano conduza como deve ser, tudo bem."
O tal do caminho diferente também estava ligeiramente engarrafado e começava a ficar aborrecida até ao tutano quando de repente, os restantes passageiros (todos homens) começam a trocar ideias sobre as irmãs siamesas que foram para Portugal a fim de serem separadas. Os médicos da PT mandaram-nas para trás porque as crianças estão unidas pelo mesmo coração. Diante do facto, um dos passageiros perguntou e bem, "mas os nossos médicos aqui não viram mesmo que elas só têm um coração? Só se separam os siameses quando eles têm dois coração. Esses nossos médicos assim andam a fazer o quê então?"
Sim, foi uma boa pergunta e toda a gente assentiu com a cabeça. Menos um senhor que ia ao meu lado e disse,"você mesmo não sabe como funciona a medicina em Angola? Se até os governantes vão para fora para se tratar, xé."
Triste verdade. Toda a gente abanou as cabeças como que a dizer, "este país mesmo tá perdido."
Entre os olhares de desesperança, diz um viajante, "esse pai das bebés agora não vai querer mais fazer filho com essa mulher. Ela assim só lhe dá filhos desses." O que ele foi dizer. Estava a preparar-me para soltar o verbo quando o meu colega do lado soltou, "não tem nada a ver. O problema é do tal homem. Ela assim também se calhar não quer mais nada com esse aí." Seguiu-se mais outro silêncio, quebrado pelo som da rádio religiosa que pairava no ar, apesar dos protestos dos viajantes.
De repente ouço: "mas essas mulheres também. Toda a hora a fazer a manifestação contra a violência. Mas e nós homens? Vocês nos violentam bem mal (a esta altura o homem estava a olhar para mim) e nós não fazemos essas marchas, pá. O que vocês nos fazem dentro de casa não é de bem. Não é de bem, minha senhora", terminou ele dirigindo-se a mim. Desatei a rir como uma perdida. O sotaque caricato do homem, a escolha de palavras e a expressão facial provocou em mim um riso non-stop. Ele continuou: "porque a essa hora numa casa qualquer, está um indíviduo bem trombudo a passar a própria calça a ferro porque a mulher diz que não passa porque, ah quem te mandou chegar tarde ontem à noite? Vocês nos violentam. Isso assim não é de bem." Eu continuava a rir com as lágrimas nos olhos. Ele olhou para mim e perguntou: " e se a gente também fosse então marchar aí contra vocês?" Respirei fundo e sem conseguir parar de rir disse: "mas senhor, vocês estão à vontade para isso. Vão então marchar por aí."
O homem ficou muito sério e respondeu que não, que eles mesmo não querem andar aí a marchar desordeiramente como nós mulheres. Chegámos finalmente ao nosso destino e desci a rir. Caminhei até ao escritório a rir. Entrei a rir e comecei a trabalhar a rir.
Tenho de começar a gravar estas conversas de ocasião. Sem dúvida.
Passei meses e meses a beber chá verde, todos os dias. Começava de manhã bem cedo e acabava ao final do dia. Diz que o chá verde deixa a pele maravilhosa (nada a contestar) e que ajuda a emagrecer. Estou mais magra, eu? NÃO!

Monday, October 18, 2010

Boas notícias

Ontem vi-me obrigada a assistir o noticário da TPA, estação pública cá da terrinha, porque os meus canais por cabo estavam fora de serviço, sabe-lá-Deus-porquê. Não quero ser má língua mas assistir o canal público dá-me brotoejas porque a falta de conteúdo é abismal, as notícias não são imparciais, os locutores não sabem o que é falar bom português e por aí vai. Bom, mas ontem não tive outro remédio e até calhou bem. Fiquei a saber que os taxistas vulgo candongueiros, passam a cobrar a partir de hoje cem cuanzas aos passageiros. Até aqui nenhuma novidade porque os sacanas já andavam a cobrar esse valor há muito tempo quando na realidade deveriam cobrar cinquenta cuanzas. O que eu gostei de ver, foi o presidente da ATL (Associação dos Taxistas de Luanda) a dizer que aqueles que tentarem cobrar mais do que o estipulado serão duramente penalizados. O homem apelou aos cidadãos para serem os fiscalizadores desta classe, uma vez que a Polícia Económica não pode estar em todo o lado. Em caso de sobrefacturação, deve-se contactar a ATL e denunciar os indíviduos em questão. Lamentavelmente, o tal do presidente não levou os contactos telefónicos da associação. Mas está dado o recado. São notícias como esta e formas de pensar como esta que me dão alguma alegria, no meio desta merda onde todos vivemos.