Tuesday, November 4, 2008

A verdade no escuro - conclusão

Conclusão da entrevista realizada a Antonio Salas, o meu mais novo herói. Mais uma vez, recomendo vivamente a leitura da entrevista.

"O saber não ocupa lugar".

"E há diferenças entre skins portugueses e espanhóis?
Os grupos portugueses são mais consequentes e menos cobardes, na hora das suas actuações públicas. A sua presença mediática também é muito maior. Em Espanha, existem personagens que poderiam ser, como o Mário Machado, elementos de liderança, que cumpriram pena por homicídio, mas não tiveram a mesma presença nos meios de comunicação. Em Portugal, têm mais presença mediática e são mais activos do que os espanhóis.

Essa visibilidade tem consequências: Mário Machado está novamente preso.
Sim, e eles lá dentro não têm vida fácil. Mas, na maioria dos casos, um skin que sai da cadeia continua a ser um imbecil. A prisão serve para se afirmar no movimento, para ganhar poder. O Machado era apenas um porteiro de discoteca e converteu-se num líder político.

Esses exemplos não fortalecem o movimento, ao dar-lhe novos mártires?
É possível que sim, sobretudo em Portugal, por causa da tal projecção nos media. Em Espanha, personagens como Machado, que cumpriram pena, não têm visibilidade nos meios de comunicação. São conhecidos, mas apenas por quem já está dentro da comunidade.

Culpa dos jornalistas?
Nós temos a obrigação de dar a conhecer a realidade social. É para isso que trabalhamos. No caso de Diário de um Skin, recebi algumas críticas, por lhes dar publicidade. Mas a resposta a isso está nas centenas de mails que recebi de miúdos a largar o movimento por se aperceberem que aquilo não era exactamente como lhes contavam.

Quem apoia financeiramente estes grupos?
Distribuidoras discográficas e editoriais, clubes de futebol (que também se alimentam deles: as claques ultra são das maiores consumidoras de material de merchandising). E este apoio é descarado e absoluto.

Por que razão é que os clubes de futebol ajudam as claques com tendências neonazis?
Essa é outra das coisas que não percebia, antes da investigação. Primeiro, porque muitos dos membros de um grupo ultra, como os 1143, em Portugal [Sporting], são sócios do clube. Votantes, que podem decidir quem vai ser o próximo presidente. No caso dos Ultrassur, do Real Madrid, eles apoiavam o «seu» candidato. Mais: eu saí literalmente afónico do estádio, a apoiar a equipa a gritar durante 90 minutos. Ninguém grita mais alto dos que os ultras. E isso até os jogadores notam, sobretudo quando jogam fora. Não lhes importa [aos clubes] que depois, fora do estádio, matem um negro. Daí que os jogadores posem para a fotografia com produtos dos ultra, como fizeram Figo, Guti, Casillas, Raul. Quanto vale um spot publicitário destes? Quanto vale a imagem de um Figo a anunciar os produtos que vendem?

Os clubes fazem tudo o que podem para ajudar a suprimir os neonazis das suas claques?
Só quando matam alguém. Quando ocorre uma morte, os meios de comunicação dão-lhe uma repercussão mediática e os clubes vêem-se obrigados a fazer alguma coisa. Mas é muito difícil para um clube renunciar aos seus ultras. Pelo apoio, pelo merchandising que eles compram. E também por medo. Há o caso de jogadores que foram agredidos por ultras, como aconteceu no Atlético de Madrid, por não lhes dar apoio público. Esse também é um factor a ter em conta.

Qual foi o sentimento que mais experimentou, na sua relação com os neonazis?
O medo. Quando ouço a palavra «medo», lembro-me de La Bodega [um bar de skins, nos subúrbios de Madrid, onde Antonio esteve]. Entrar com uma câmara oculta num sítio com 200 cabeças rapadas... Não sou nenhum valentão. Passei muito mal.

Sentiu muitos momentos de empatia com eles?
Se estamos durante um ano a conviver dia e noite com um grupo de pessoas, a comer com eles, a dormir com eles, a conhecer os seus pais, eles tornam-se os nossos camaradas. Cria-se um vínculo afectivo e eu vivia com a ideia de que os estava a enganar. Houve dois ou três momentos em que senti uma tentação enorme de lhes dizer: «Sou um jornalista que te está a gravar com uma câmara oculta.»

Hoje continua a viver com medo...
Sim. Andam à minha procura por toda a Espanha. Mas, apesar de tudo, aqui em Espanha, eles já se aperceberam que é mais seguro matar vagabundos. As estatísticas mostram que aumentaram o número de homicídios de vítimas sem papéis. O que coincide com o aumento do número de nazis nessa zona.

Foi um polícia que o denunciou aos neonazis. É a prova de que eles estão infiltrados em sectores importantes da sociedade?
Sim. A maior prova é o caso de Lucrecia Perez, assassinada [em 1992] por um guarda civil neonazi. Os skins gostam das armas, do mundo militar, da violência, da hierarquia. Uma imensa maioria, como o caso de Machado, é segurança porque não conseguiu entrar na polícia. Há uma relação directa com as forças militares. Há muitas famílias de militares que apoiaram Franco e Salazar... Os seus filhos e netos tentam seguir os seus passos.

Qual foi o seu preconceito que se revelou mais errado?
Que eram um bando de ignorantes e que era fácil enganá-los. Não fazia ideia das suas ligações ao futebol e ao Islão, por exemplo.

Confessa, no livro, que uma das razões que tornaria este trabalho mais difícil é a sua extrema distância à ideologia nazi. Agora que os conhece melhor do que nunca, despreza-os mais ou compreende-os melhor?
Entendo porque fazem o que fazem, porque pensam o que pensam, mas sei que estão enganados."


1 comment:

Sílvia said...

Olá!
Tenho mais um desafio para ti!
Quando puderes vai a http://reflexosilvia.blogs.sapo.pt/
Beijinhos