Tuesday, December 14, 2010

Na colheita

O ano está a findar. É inevitável o balanço anual. Na realidade, nunca fui muito de fazer balanços. Creio que por achar que todos os anos eram iguais. Talvez estivesse a ser injusta comigo mesma, não sei. Sei que este ano, foi um ano estupendo. E ocorre-me que provavelmente, os outros anos pareciam-me iguais porque eram tempos de semeadura. Semeei muito, diga-se de passagem e este ano, este ano par, foi tal como disse, estupendo. Foram meses de pura colheita ou de conquista se preferirem.
Arranjei a minha casa e é lá finalmente o meu refúgio, desta cidade que me consome a mil à hora, pese o facto de eu viver isolada, distante do fervilhar social que em nada me atrai. A minha casa é maravilhosa. O ar flui, a energia desliza sem barreiras. E o meu quarto é o supra sumo da minha toca onde descanso os ossos, sosssego a alma e sonho sem parar.
Este ano viajei. Foi o ano onde os meus horizontes se abriram em catadupa sem qualquer controlo da minha parte. Estive no Brasil, país irmão, quente e acolhedor. Não me vejo a morar lá, mas senti-me em casa. Não sei se porque a língua é a mesma ou se porque o povo que habita aquela terra é hospitaleiro até às margens.
Estive também no Chile onde em cinco frenéticos dias conheci gente de todo o mundo. E onde fiz amigos, espero eu, para o resto da vida, ainda que a distância pareça assustadora.
Nestes doze meses, evoluí muito como tradutora, embora não tenha qualquer licenciatura na área. E graças a este facto, descobri finalmente o que quero fazer da minha vida. Sim, 34 anos depois, encontrei o meu rumo e embora me encontre a tremer de medo por querer seguir o meu caminho, a descoberta deixou-me e deixa-me em estado em êxtase.
E para rematar, daqui a um mês regressarei a casa por um mês. E anseio por estar novamente com os meus amados amigos à volta de uma mesa, de cerveja na mão e cigarro na boca e com a alma relaxada e disponível.
Foi um ótimo ano e sei lá eu se alguma vez tive um ano tão formidável como este. Para o próximo ano, não planeio nada. Gostava que fosse tão maravilhoso como este foi, mas deixarei isso a cuidado do Universo. Confio-lhe os caminhos da minha vida e o que tiver de ser, será!
Shalom.

A vida a cores


Wednesday, December 8, 2010

Adieu mon chérie

Acho que comecei a dizer adeus ao G. quando ainda me encontrava no Brasil e o estado sublime em que me encontrava por estar de férias, amorteceu em muito, o choque que senti quando ele disse-me que estava apaixonado por outra mulher. E parecia que ela sentia o mesmo, mas ao melhor estilo de Romeu e Julieta (porque com ele as coisas são sempre difíceis), ambos negaram o amor e tentaram seguir caminho.
Passado um ano a tentar conquistá-lo, a ser-lhe leal e amiga, esta informação só não me deu cabo do espírito porque tal como disse, estava de férias. O que não me impediu de soltar meia dúzia de lágrimas e de desabafar no colo da minha querida amiga Isabella. Eu, sem saber, dizia-lhe adeus de cada vez que ia para a varanda contemplar o céu do Recife enquanto fumava um cigarro, companheiro das horas boas e más. Trocámos meia dúzia de emails. Cada um expressou-se como pôde. Eu, amargamente e ele, dócil como um cãozinho orfão. Sempre dócil e educado.
Levei as coisas com calma e confesso que dramatizei um pouco. Sou mulher e pertenço ao signo balança o que dá uma mistura muito pouco sensata. Voltei para Angola sem responder ao último email que ele me enviou em que se bem me recordo, enaltecia as valorosas propriedades da amizade.
Regressei e tentei ignorá-lo. Ignorei o quanto pude mas as saudades pregaram-me uma valente rasteira e assim que amansei o coração, voltei às boas com ele. Andávamos nas nuvens e as palavras que mais utilizávamos eram: amizade, contente, feliz e saudades. Mas depois, aconteceu alguma coisa que eu desconheço qual seja e ele desapareceu. Foi de férias para uma aldeia qualquer do país dele e desapareceu. Mandei email porque não estava habituada a tanto tempo de ausência virtual. Respondeu-me dócilmente como sempre, prometendo que falaríamos em breve. E passaram-se quase três ou quatro meses. Ás vezes metia conversa com ele no messenger mas pouco falávamos porque estava sempre ocupado e deixámos de trocar palavras no facebook. Pensei cá para mim que devia estar mesmo ocupado com alguma coisa. Ás tantas lá me apercebi que era sempre eu a ir ter com ele. A puxar assunto. A chegar-me à frente para matar saudades. E às tantas vi na página dele do facebook que andava a conversar com uma tipa qualquer da América Latina. Tinha tempo para falar com ela, pelos vistos.
Azedei. Azedei e cortei-o de todos os meus contactos sem lhe dizer palavra. Tentei ser racional e manter a amizade for the sake of the universe e também para mostrar alguma maturidade mas, às tantas apercebi-me que ele não me trazia nada de novo. E a amizade era recente e tinha começado a partir de uma curiosidade mulher/homem, mútua. Então, a lógica disse-me que ao bloqueá-lo nada tinha a perder.
Ás vezes sinto saudades das nossas conversas e o primeiro impulso que tenho é de o recuperar e voltar às boas mas depois lembro-me dos motivos de o ter banido. E chego à conclusão que o faria movida pela estúpida esperança e para que as palavras gentis dele, me acariciassem o ego, pois que ele sempre me disse que considerava a minha amizade inestimável.
Os pensamentos já deixaram de me levar ao G. com frequência. Mas se por acaso acontece, entro em conflito perguntando-me se fui sábia em ter banido uma pessoa de boa índole como ele. Se fiz bem em bater-lhe com a porta na cara. Depois acalmo-me e deixo de sentir culpa.
Mereço mais e melhor, embora ainda não saiba onde encontrar mais e melhor. Fiz-lhe o luto e embora ainda esteja a ressacar desta relação platónica, desejo-lhe felicidades. Se um dia tivermos de nos encontrar - sem se que seja apenas em sonhos - muito bem.
Por cá estarei sem procurar ninguém. Vou antes deixar que me encontrem. Quem sabe assim terei o que mereço e o que preciso sem que saiba exactamente o que isso possa ser.

Thursday, November 18, 2010

Tuesday, November 16, 2010

Partir exige um dilaceramento que arranca uma parte do corpo à parte que permanece aderente à margem do nascimento, à vizinhança do parentesco, à casa e à aldeia dos utilizadores, à cultura da língua e à rigidez dos hábitos. Quem não se mexe nada aprende. Sim, parte, divide-te em partes. Teus semelhantes talvez te condenem como um irmão desgarrado. Eras único e referenciado. Tornar-te-ás vários, às vezes incoerente como o universo que, no início, explodiu, diz-se, com enorme estrondo. Parte, e tudo então começa, pelo menos a tua explosão em mundos à parte. Tudo começa por este nada. Nenhum aprendizado dispensa a viagem.

Michel Serres

Monday, November 8, 2010

Reflexões. Conclusões. Dúvidas.

Há pouco escrevi um texto sobre "partir", sobre o que significa para mim este verbo. E no meio do frenesim dos meus dedos a baterem no teclado, de ideias soltas e de conclusões há muito definidas, cheguei a um novelo concreto que me fez perceber porque quero tanto deixar Angola. Existem outros motivos além da minha total falta de afinidade com o país e com as gentes.
Percebi que quero partir para redescobrir-me. Preciso saber quem é a Clara dos trinta e quatro anos. Cheguei com vinte e sete anos e apesar da vida socialmente limitada que levo, experienciei muitas coisas, vi e constatei uma série de factos, uns mais agradáveis que outros e realizei algumas conquistas que me fizeram ver do que sou capaz. Aprendi a não estagnar, a ser franca com os outros ainda que doa e percebi claramente o que não quero para mim. Estou mais una, madura. Sete anos volvidos, penso ser a altura ideal para me voltar a atirar no mundo. E será um novo mundo porque sou em parte uma nova mulher, um novo ser. Um pouco mais completa, mais dona de mim. Não engulo mais sapos. Só faço o que quero. E digo o que me apetece.
Viajei por alguns países e conheci gente nova. Aprendi a dominar a internet a meu favor ou se preferirem, a favor da minha inteligência que está mais afiada do que nunca. Ganhei novas percepções e mais do que nunca sei que o mundo é um horror. Repleto de almas escuras, de calamidades, de pesadelos dominados por monstros de garras afiadas. Mas também sei que o mundo, que este planeta onde habitamos pode ser belo e cheio de gente pronta para nos acolher. Também sei que consoante a minha fé (que muito oscila) terei oportunidades que saberei agarrar. E sei também que depois do desespero vem a esperança. O mundo é uma montanha por conquistar e a minha vontade é soberana.
Chego aos trinta e quatro anos mais estável do que nunca. Caminho sem redes. Sei de onde vim, por onde passei e sei onde quero estar no futuro. Os meus planos não são lineares. Encontrarei imprevistos dolorosos e curiosos pelo caminho e irei sofrer e duvidar de mim. Mas aqui dentro, dentro de mim, do meu coração e da minha cabeça, reside a vontade de dar um salto de fé. A fé em mim e na vida.
Curioso. Hoje a meio da noite acordei com medo. A minha mente viajou em fracções de segundos para a nova vida que quero levar e o meu corpo tremeu. Tremeu de dúvidas e medos. Tremeu com a ideia de enfrentar novos desafios e lembro-me de perguntar a mim mesma, se seria uma decisão sensata. Largar a estabilidade e atirar-me sem asas. Depois voltei a adormecer.
E agora eis-me aqui. A escrever precisamente o contrário. Sou una mas tenho dúvidas e apesar de tudo falta-me a coragem. Ainda...
Mas no meio de tantas dúvidas uma coisa sei ao certo. Ficar em Angola para o resto da vida, está fora de questão. Sinto a alma a reclamar por mais espaço.

Ir


Partir

Partir. Este verbo está sempre presente na minha cabeça. Partir. Gosto da ideia. Gosto de o saber aqui, dentro de mim. Partir para nunca mais voltar ou partir para voltar um dia, quem sabe? Partir pelo simples prazer de ir sem remos, asas ou sonhos.
Partir porque a mala roxa debaixo da cama não me permite olvidar o verbo partir. Verbo íntimo que me abraça em sonhos relaxados onde o peso da realidade não existe. Partir sem destino, aconchegos ou medos. Partir porque sim. Partir porque a alma não cabe neste espaço onde se encontra. Partir para ser livre. Livre, talvez para sofrer angústias passadas. Partir para ir de encontro à estagnação, ao pesadelo poético de uma vida tecida em fios tão finos como os sonhos.
Sim, gosto do verbo partir. De me saber sem amarras emocionais que são as que mais limitam o ser humano mas não a mim. Partir numa jangada de madeira, num avião pesadelo. Partir em busca do que foi ou melhor ainda, partir em busca do novo. Partir para descobrir quem sou após tantas experiências, tanta estabilidade e tanta idade. Partir rumo ao futuro. Rumo ao futuro e a mim mesma. E é só por isso que quero partir.

Direcções


Friday, October 29, 2010

The logical song

"There are times when all the world is asleep, the questions run so deep for such a simple mind. Won´t you please...please tell me what´s with love? I know it sounds absurd, please tell me who I am."
Supertramp

I just lost a litle faith...

Um destes dias, a minha companheira de casa aka prima querida apanhou-me a ouvir a música "All by myself" na voz da Céline Dion. Ficou espantada a prima e logo me disse que não estava nada à espera de ouvir tal som a sair do meu computador. Mas sabem o que é? Já tenho 34 anos no lombo e continuo all by myself. Ando ensarilhada para encontrar o tal do amor que dizem fazer maravilhas à pele, ao coração e a outros orgãos que tais. De maneira que a música cabe em mim como uma luva.
Ando preocupada com a solidão. E mais preocupada ainda porque até gosto. E não gosto. Ás vezes penso que se calhar dava-me jeito ter um amiguinho que me aquecesse os pés no cacimbo ou que me levasse a jantar ou ao cinema. Ou até quem sabe, caramba, que me levasse a escalar os Alpes. Dava jeito sabem? Até para calar as más línguas que me dizem encalhada, tia e outros adjectivos perniciosos e maus para a moral. Eu, que sou uma rapariga jeitosa, inteligente, bem humorada, trabalhadora e bem...casadoira..cof cof.
Já fui super romântica e acreditem cheguei a acreditar no tal do amor, mas as desilusões, os sapos que beijei pelo caminho e ui ui foram imensos, levaram-me com jeitinho para as ruas escuras da amargura e do cinismo.
De maneira que quando com a armadura em baixo, dá-me para voltar a acreditar e ter fé. "A arte de viver da fé só não se sabe fé em quê", já cantavam os Paralamas do Sucesso.
Só que essa fé, a fé de acreditar no amor, de acreditar que existe a tampa para a minha panela (expressão à la século 20) vem com força e com mais força ainda se vai.
Pronto, sou uma desgarrada, uma sem fé. Mas o que querem? O amor raramente bate à minha porta. E quando acho que me aparece uma oportunidade, zás! Beijo na boca e o sapo aparece mais rápido que brotoejas em dias de 40 graus.
Eu sei bem o que é ficar presa na tristeza e amargura de um amor perdido. Aquele tipo de amor que nos faz ter vontade de amar até à velhice. Sei bem o que é ficar de cama. Qual doente profundamente incapacitado. Incapacitado demais para sair da cama e fazer coisas básicas como tomar banho, comer, lavar os dentes...
É uma dor na alma que atinge o corpo. É um vendaval de dúvidas, de sofrimento e de esperança mal-amanhada. De noites sem dormir. Cheguei a empapar almofadas de tanto chorar. Portanto perdoem-me por ser descrente, cínica e infeliz emocionalmente. Vejam bem, a culpa não é minha. É principalmente do T. e de mais dois ou três vândalos. A culpa é deles. E apenas 1% minha por não me terem ensinado a amar como mulher adulta. Para que é que me deram o doce? Para retalhar-me o coração em seguida? Malandros.
Mas quem sabe um dia? Como canta a minha amada Tracy Chapman: "I just lost a litle faith when you broke my heart. Given a chance I might try again. I would risk it all this time. I´d save litle love for myself. Enough for my heart to mend. Because one day I just might love again. One day some sweet smile might turn my head. One day..."
O meu amigo M. gosta de chamar-me Pingo de Mel. Nem sei porquê. Ele sabe que de docinha não tenho nada. Que o digam alguns dos meus colegas de trabalho que às vezes me dizem: "Porra, com esse teu feitio esquentado não admira que ainda não tenhas casado." Barfeeeeeee. Parvos!
Tenho 34 anos e o meu coração continua tão vagabundo como quando tinha 24 anos.

O Paulinho Cascavel

O pensamento hoje levou-me hoje ao Paulinho Cascavel. O Paulinho Cascavel (alcunha) era meu colega da secundária. Deveríamos ter na altura uns 14 ou 15 anos. Morávamos ao pé um do outro. Não me lembro do dia em que engatámos amizade. Se foi no recreio, em plena aula ou se foi pelo caminho que percorríamos para chegar a casa ou à escola. Sei que a partir do dia em que demos conta da existência um do outro, passámos a ir juntos para a escola.
Ele tinha de passar pelo meu prédio para seguir caminho, então todos os dias esperava por ele, à janela daquele terceiro andar que tanto sofrimento me trouxe, para irmos para as aulas. Não sei quais eram os temas das nossas conversas mas eu gostava muito da companhia dele e tenho a certeza que ele gostava da minha. É curioso como esse tempo parece pertencer a uma outra vida. Como não me consigo visualizar fisicamente e como não recordo as conversas que tinha com os amigos dessa época. Gabo-me de ter boa memória mas muita coisa daqueles anos malditos, desapareceram como pó levado pelo vento quente.
O Paulinho Cascavel tinha essa alcunha porque adorava jogar futebol. Lembro-me de ouvir o meu primo dizer que o Paulinho era um fuçanga com a bola. Parece que ainda vejo a casa dele. Dava para ver da varanda do meu quarto. E parece que ainda o vejo hoje: magro, cabelo liso, olhos castanho vivos.
Reencontrei-o anos depois no autocarro. Ele reconheceu-me. Sentei-me ao pé dele e conversámos como se o tempo não tivesse passado. Também não me lembro da conversa. Só lembro-me de nos encontrarmos e de parecer que o tempo tinha voltado atrás.
Ás vezes o Paulinho vem-me à memória e penso muitas vezes em ir bater à porta da casa dele. Ou de voltar à varanda do meu antigo quarto e olhar indeterminadamente para a casa que o abrigou durante tantos anos.
Não sei nada do Paulinho Cascavel. Se está vivo. Se emigrou. Se é feliz. Ou se lembra-se de mim também e se como eu, pensa em mim com carinho.
Há pessoas de quem gostamos e que não se mantêm na nossa vida. E eu acho isso triste...sim...

Wednesday, October 20, 2010

No dia a dia

Então é assim: a meio desta vida aqui na terra dos doidos e da sujeira, decidi deixar-me de merdas e enfrentar os famosos candongueiros. Enfrentei com relativa facilidade visto que o percurso que faço da minha casa até ao escritório ser bastante curto. 5 minutos num dia sem trânsito, ou seja quase nunca. Acho que foi uma boa decisão minha porque a bem ou a mal acabo por absorver mais sobre a cultura nacional. Seja a nível musical, o que significa que de vez em quando tenho de ouvir kuduro com letras bastante criativas como "tremura tremura", ou "cheira a xixi" (acreditem se quiserem). De vez em quando apanho alguns motoristas com gostos mais sensatos que se ficam pela bela voz da Yola Semedo ou pelas letras simpáticas do Anselmo Ralph. E certa vez, pasmem-se, apanhei um motorista que ouvia Lena D´Água (cantora portuguesa) a trinar o velho refrão "sempre que o amor me quiser."
A música é uma forma de me aculturar indirectamente mas as conversas são a obra-prima do aculturamento involuntário. Ontem saí de casa às 9h30 e estava de chuva. Resultado: trânsito infernal o que fez com que o motorista de serviço fizesse uma rota diferente para chegar ao destino. O cobrador perguntou-me se estava bem assim. Eu sacudi os ombros em jeito de assentimento e acrescentei, "desde que aí o mano conduza como deve ser, tudo bem."
O tal do caminho diferente também estava ligeiramente engarrafado e começava a ficar aborrecida até ao tutano quando de repente, os restantes passageiros (todos homens) começam a trocar ideias sobre as irmãs siamesas que foram para Portugal a fim de serem separadas. Os médicos da PT mandaram-nas para trás porque as crianças estão unidas pelo mesmo coração. Diante do facto, um dos passageiros perguntou e bem, "mas os nossos médicos aqui não viram mesmo que elas só têm um coração? Só se separam os siameses quando eles têm dois coração. Esses nossos médicos assim andam a fazer o quê então?"
Sim, foi uma boa pergunta e toda a gente assentiu com a cabeça. Menos um senhor que ia ao meu lado e disse,"você mesmo não sabe como funciona a medicina em Angola? Se até os governantes vão para fora para se tratar, xé."
Triste verdade. Toda a gente abanou as cabeças como que a dizer, "este país mesmo tá perdido."
Entre os olhares de desesperança, diz um viajante, "esse pai das bebés agora não vai querer mais fazer filho com essa mulher. Ela assim só lhe dá filhos desses." O que ele foi dizer. Estava a preparar-me para soltar o verbo quando o meu colega do lado soltou, "não tem nada a ver. O problema é do tal homem. Ela assim também se calhar não quer mais nada com esse aí." Seguiu-se mais outro silêncio, quebrado pelo som da rádio religiosa que pairava no ar, apesar dos protestos dos viajantes.
De repente ouço: "mas essas mulheres também. Toda a hora a fazer a manifestação contra a violência. Mas e nós homens? Vocês nos violentam bem mal (a esta altura o homem estava a olhar para mim) e nós não fazemos essas marchas, pá. O que vocês nos fazem dentro de casa não é de bem. Não é de bem, minha senhora", terminou ele dirigindo-se a mim. Desatei a rir como uma perdida. O sotaque caricato do homem, a escolha de palavras e a expressão facial provocou em mim um riso non-stop. Ele continuou: "porque a essa hora numa casa qualquer, está um indíviduo bem trombudo a passar a própria calça a ferro porque a mulher diz que não passa porque, ah quem te mandou chegar tarde ontem à noite? Vocês nos violentam. Isso assim não é de bem." Eu continuava a rir com as lágrimas nos olhos. Ele olhou para mim e perguntou: " e se a gente também fosse então marchar aí contra vocês?" Respirei fundo e sem conseguir parar de rir disse: "mas senhor, vocês estão à vontade para isso. Vão então marchar por aí."
O homem ficou muito sério e respondeu que não, que eles mesmo não querem andar aí a marchar desordeiramente como nós mulheres. Chegámos finalmente ao nosso destino e desci a rir. Caminhei até ao escritório a rir. Entrei a rir e comecei a trabalhar a rir.
Tenho de começar a gravar estas conversas de ocasião. Sem dúvida.
Passei meses e meses a beber chá verde, todos os dias. Começava de manhã bem cedo e acabava ao final do dia. Diz que o chá verde deixa a pele maravilhosa (nada a contestar) e que ajuda a emagrecer. Estou mais magra, eu? NÃO!

Monday, October 18, 2010

Boas notícias

Ontem vi-me obrigada a assistir o noticário da TPA, estação pública cá da terrinha, porque os meus canais por cabo estavam fora de serviço, sabe-lá-Deus-porquê. Não quero ser má língua mas assistir o canal público dá-me brotoejas porque a falta de conteúdo é abismal, as notícias não são imparciais, os locutores não sabem o que é falar bom português e por aí vai. Bom, mas ontem não tive outro remédio e até calhou bem. Fiquei a saber que os taxistas vulgo candongueiros, passam a cobrar a partir de hoje cem cuanzas aos passageiros. Até aqui nenhuma novidade porque os sacanas já andavam a cobrar esse valor há muito tempo quando na realidade deveriam cobrar cinquenta cuanzas. O que eu gostei de ver, foi o presidente da ATL (Associação dos Taxistas de Luanda) a dizer que aqueles que tentarem cobrar mais do que o estipulado serão duramente penalizados. O homem apelou aos cidadãos para serem os fiscalizadores desta classe, uma vez que a Polícia Económica não pode estar em todo o lado. Em caso de sobrefacturação, deve-se contactar a ATL e denunciar os indíviduos em questão. Lamentavelmente, o tal do presidente não levou os contactos telefónicos da associação. Mas está dado o recado. São notícias como esta e formas de pensar como esta que me dão alguma alegria, no meio desta merda onde todos vivemos.

Tempos austeros na PT

O governo português declarou oficialmente que os tempos são de austeridade. Esta coisa da austeridade é relativa. Quando eles, entenda-se governo, falam de austeridade referem-se ao zé povinho. O que eles querem realmente dizer é: "lamento imenso povo português, mas vamos acabar de vos enfiar o dedo no cu." Perdoem-me o palavreado mas não encontro outra forma de me expressar. Estou solidária com a malta lá na PT. Aqui na terra dos doidos não sinto a crise mas sei que por lá a coisa está preta. Sei-o pelas notícias e sei-o pela boca dos amigos. Estou solidária com os portugueses e lamento profundamente que aqueles políticos de meia tigela não saibam gerir o país. É assim que querem seguir os passos da comunidade europeia?? Por favor. Deixem-se de corrupções, de projectos inúteis e abandonem o provincianismo que vos está no sangue. Abram a cabeça e pensem a longo prazo. Jesus. Isto até me provoca náuseas!

Era só o que faltava



A Brigite Bardot pondera candidatar-se à presidência francesa. A notícia em si não me espanta. Ela sempre teve opiniões bastante politizadas. Agora, duvido que consiga ser eleita e espero realmente que não o seja. Eu diria que já basta a França ter um presidente xenófobo quanto mais uma boneca de porcelana que dissemina as suas ideias racistas com a maior das naturalidades.

Corrupção vs transparência

Li algures num site, penso que no da Laurinda Alves (infelizmente não encontrei o post) que os governantes suecos são bastante transparentes no que diz respeito às suas contas. Eu já sabia disso, só não sabia que existe um site onde o cidadão pode espreitar de vez em quando a quantas andam os gastos dos seus governantes. Ao contrário do que acontece em países como o meu - neste caso falo de Angola - onde a corrupção está a céu aberto qual esgoto imundo, grande parte dos deputados suecos mora em habitações modestas e outra grande parte desloca-se para o parlamento de bicicleta. Fantástico, não acham?
Em Angola, os governantes passeiam-se em viaturas topo de gama, moram em vivendas imensas protegidas da curiosidade alheia, viajam para o estrangeiro quando sofrem de alguma maleita, condicionam as auto-estradas com aparato militar porque cagam-se nas ceroulas com medo de serem assassinados e por aí vai o nepotismo desta gentalha que suspostamente representa o povo. É triste viver no terceiro mundo, sabem? É frustrante morar numa terra onde os poderoso fazem o que querem e ainda dizem: "você sabe quem eu sou?"
Esta minha alma europeia (sim, que tenho sangue português nas veias) não tolera estas merdas. Quando vejo o exemplo da Suécia, fico positivamente arrepiada porque para mim, a transparência sueca significa RESPEITO pelos cidadãos e EVOLUÇÃO e isso dá-me alguma confiança na humanidade. Os governantes angolanos e todos os outros que estão agarrados ao poder como se de algo divino se tratasse, estão a anos-luz de compreender o significado destas duas palavras.
Há seis anos que aturo a pequenez que paira sobre a sociedade angolana e digo-vos pá, estou farta até ao tutano! Sinto cada vez mais que o meu tempo aqui na terra dos doidos está a findar. Aleluia!
Gostava de colocar aqui o link para o site sobre a transparência sueca, mas infelizmente não sei mais onde o encontrar...

Friday, October 15, 2010

Por um mundo melhor: abaixo a violência doméstica.

Ao trabalhar voluntariamente para o Global Voices Online tanto como autora como tradutora (inglês/português), deparei-me com a triste história de uma mulher arménia que morreu às mãos do marido e da sogra. Zaruhi Petrosyan tinha vinte anos, era mãe de dois filhos e estava casada há dois com um animal que lhe batia constantemente. Zaruhi partiu para o outro mundo com uma hemorragia cerebral, um dedo partido e hematomas espalhados pelo corpo. O motivo da sova fatal? Dinheiro.
Como acontece em vários países do mundo, a Arménia não é excepção, a família apresentou queixa à polícia por duas vezes que por sua vez deixou-se estar de braços cruzados. O estigma da violência doméstica, de falar-se abertamente sobre o assunto é muito forte e razão para vergonhas. Os governantes arménios dão-se inclusive ao luxo de dizerem que tal problema não existe. A prova da não existência de casos de abuso está à vista.
Quando estava a traduzir o texto, pensei na quantidade de mulheres que sofrem este tipo de abusos. Mulheres que engolem a dor, silenciam os grunhidos dos maridos e que fecham-se em si mesmas por não terem para onde fugir. Em pleno século 21 presenciamos ainda situações bárbaras como esta e acabo por perguntar-me quando chegará a tão aclamada evolução mundial?
Se quiserem inteirar-se do desafortúnio da Zaruhi, cliquem aqui. O texto está em inglês. Não sei quando sairá a tradução que fiz para português. A acompanhar a notícia, está um vídeo onde a irmã e a mãe da pobre rapariga assassinada relatam uma história assombrosa de violência.
Existe uma petição a circular que chegará (assim espero) às mãos do primeiro-ministro arménio, com o intuito de promulgarem uma lei contra a violência doméstica. Já se conseguiram 2,063 assinaturas. Pretende-se chegar às 3000. Contribuam por favor. Basta clicarem aqui.

Thursday, October 7, 2010

Eu, futuramente na Londónia



Ir ao Reino Unido, mais concretamente a Londres, sempre foi um sonho de consumo que me fazia roer as entranhas de cada vez que me lembrava de como parecia difícil de realizar. Felizmente, a minha vida tem um novo rumo e a situação financeira melhorou bastante, bem como a força de vontade de fazer o que me dá na cabeça. Sendo assim, decidi que para o ano vou pisar nessa terra fria outrora comandada pelo rei Henrique VIII.
Londres é a terra dos meus sonhos. A que povoa o meu imaginário com a mistura de gente que ali mora e com a cultura fervilhante e fresquinha que só os habitantes do primeiro mundo têm o prazer de consumir na hora, qual pão quentinho acabado de sair do forno.
Se a vida me permitir, estarei por lá em Março. Quero ir a Portugal claro, já que há um ano que o pessoal de lá não me põe a vista em cima e da Lusitânia conto viajar para Londres onde pretendo flanar a alma, o coração e todos os poros do meu ser. Tenho lá uma amiga dos tempos da adolescência com quem converso todos os dias por email e mais três ou quatro almas simpáticas a quem posso levar a minha joie de vivre.
O plano é expandir a minha bagagem cultural naturalmente, e afundar o fígado nos mil e quinhentos bares que me aparecerem à frente. Sem perder de vista os espécimes masculinos que por enquanto ainda sou solteira e boa rapariga. Penso que uma semana, pronto, uma semana e meia será suficiente para realizar o sonho ou deixá-lo morrer.
Se tiver euros a mais no bolso, gostaria de embarcar no famoso TGV, aquele comboio biónico que atravessa o Canal da Mancha (outro desejo por realizar) e dar com os costados em Paris. Não só para conhecer a cidade do amor e toda a história secular que a envolve mas como para reencontrar o meu "amigo" francês, com quem não tenho uma conversa decente há meses. De Paris regresso a casa, entenda-se Lisboa, e de lá volto para esta terra vermelha que me causa brotoejas em dias maus.
Parece um bom plano, não acham? Agora toca a juntar dinheiro porque sou filha de um intelectual e de uma mulher que vende bebidas à porta de casa e nenhum deles tem uma conta bancária daquelas de meter inveja.
Bom, mas toda esta conversa surgiu porque há que realizar os nossos sonhos enquanto temos força e capacidade financeira para isso. A vida é demasiado ténue para a estagnarmos em desculpas mil. Portanto, toca a pôr em movimento as rodas da realização!

34 anos na conta da vida

Fiz 34 aos esta semana e passei-os aqui em Luanda. Digo isto porque no ano passado, celebrei o meu aniversário em Lisboa onde deixei-me raptar por quatro almas amigas que me levaram até ao Marvão a uma feira islâmica. Foi bastante divertido. Bebemos todo o tipo de ginjas disponíveis na feira, bebemos chás, comprámos artigos islâmicos, comemos e quando regressavamos à cidade capital chovia a cântaros o que é algo que me reconforta a alma desde sempre. Bom, mas issos são águas passadas.
Este ano passei-o sozinha na minha fantástica casa a ouvir música e a bebericar uma cerveja preta que agora faz parte da minha lista de pingas favoritas. Pensei que iria ficar deprimida o dia todo, visto que os quarenta estão à porta e a morte passa a ser a cada ano um dado adquirido e cada vez mais, tema para reflexão. Mas felizmente o meu estado de espírito estava nas alturas. Energia positiva a rebentar pelas costuras e amor para dar e vender, graças em parte à quantidade fabulosa de mensagens que recebi no facebook de seres amados e almas boas como a minha.
Apesar de ter passado o dia fisicamente sozinha, a verdade é que senti-me bastante acompanhada. Os amigos mesmo à distância fizeram-se presentes e fechei o dia com chave de ouro por saber que sou muito amada e especial e que portanto, devo estar a viver a vida como deve ser.
Ao sentir-me muito amada e francamente especial, ocorreu-me uma sensação reconfortante. A de sentir o amor fluir em mim como raios de luz que nos trespassam a meio de manhãs dominadas pelo sol. Foi como se as minhas grades interiores se tivessem desbloqueado sozinhas e tudo o que eu sou corresse como um rio em finais de tarde povoados por pássaros viajantes. Como se estivesse finalmente confortável na minha pele. E desta sensação veio o pensamento de que sou capaz de partilhar o amor que guardo em mim e de partilhar a vida com outro ser que era coisa que jamais imaginava. Não só por ser independente demais mas igualmente por fraqueza.
De maneira que esta semana está a ser maravilhosa. Descubro-me e agarro-me à vida com entusiasmo, porque só assim ne sinto verdadeiramente viva.

Ó vida


Wednesday, September 15, 2010

Descontrução/Solidão

Hoje pude ler no blogue http://euabracavatueoholandes/ (gosto imenso), um texto magnífico sobre desconstrução e solidão. Como são dois assuntos que me interessam e porque já os vivenciei, fiquei bastante inspirada e eis-me aqui a divagar e qui ça a chegar a conclusões que me conduzam a um caminho de cores e magia.
Acho que a descontrução de nós mesmos e a solidão estão interligadas. E arrisco-me a dizer que a solidão tem também os seus momentos desconstrutivos no sentido em que tiramos as vestes do dia-a-dia para analisarmos sobre determinado assunto.
Tenho a impressão que a primeira vez que fiz a minha primeira desconstrução foi aqui em Angola. A mudança é sempre um factor de estímulo para este exercício. Mas como dizia, cheguei a um país estranho - sim, eu sei que nasci aqui mas é só isso - povoado por gente estranha com hábitos e mentalidade diferente daquela a que estava habituada. Cheguei pensando que seria fácil fazer amigos e que talvez quem sabe, encontrasse o amor que me fugia tantas e tantas vezes em Lisboa. Mas o choque foi brutal e a adaptação vagarosa. A combinação das duas conduziu-me à solidão e consequentemente às saudades diárias e chorosas em relação aos bons amigos que deixara em Lisboa.
Para adaptar-me sem muito choro, tive de rever muita coisa e de soltar algumas raízes que me prendiam e prendem a Portugal. Estive enfiada dentro de um casulo morno para proteger-me do que via, ouvia e sentia. Esse estado durou um ano. No segundo ano de cá estar, percebi que tinha de sair devagarinho para acompanhar a vida que girava à minha volta e foi assim que fui perdendo ideias pré-concebidas e absorvendo o que me interessava.
Ainda tenho uma asa dentro do casulo e mantenho ideias muito próprias, recusando-me a ceder a um sistema que diz que é normal roubar dinheiro à empresa ou que os homens podem ter uma ou mais mulheres. E recuso-me a aceitar passivamente a futilidade dos jovens da minha geração, a prostituição velada de mulheres de família ou a falta de civismo que me incomoda profundamente.
Tive de passar pelo processo de desconstrução, mutação e absorção de um novo ambiente para sobreviver, para manter-me relativamente sã sem descurar a bagagem emocional que trazia de Portugal. Fi-lo sozinha claro e foi doloroso no sentido em que despi-me a tal ponto que uma nova Clara apareceu. E é por vezes esta Clara que assusta os amigos lisboetas porque não a conhecem. Claro. E ao estar com eles, volto a renovar-me e a buscar em mim a antiga Clara, sabendo eu e eles que essa existe apenas em fragmentos. Em fragmentos de memórias e acções que renascem por estar de volta ao meu ambiente natural.
A desconstrução e a solidão são ferramentas essenciais de auto-conhecimento, de validação. Indicam-nos o caminho para onde levamos a existência. Quanto à solidão...bem...é minha companheira de muitas e muitas horas. E já não encaro a solidão com negatividade. Dependendo da forma como a encaramos, a solidão é crucial para o nosso desenvolvimento pessoal uma vez que nos permite o raciocínio em sossego. Acho que uma pessoa tem de ser forte o suficiente para lidar com a solidão positivamente, no sentido em que sabe que está em sua própria companhia sem que isso seja necessariamente mau.
Quando estava em Portugal, tinha pavor da solidão. O que eu mais queria era estar na companhia de alguém, fosse numa sala de cinema, a beber um café ou a passear. Estar sozinha fazia-me pensar em seres solitários e amargos. Como os idosos que metiam conversa comigo nas paragens de autocarro. Ao vir para cá, consegui entender a solidão. Vivo bem com a minha solidão e ao contrário do que alguns pensam, não sou solitária. Sou independente. Independente demais.
Este texto ficou mais comprido do que pretendia e não abordei alguns pontos. Para não maçar os meus bravos leitores, fico-me por aqui, certa de este tema ainda pode dar muito pano para mangas.

Beauté


Ignorâncias à parte

Chegada ao Galeão (aeroporto no RJ), estafada depois de regressar do Chile. Dirijo-me ao balcão da imigração. A ser atendido à minha frente estava um falante da língua inglesa. As costas dóiam-me porque tinha na mochila o computador e um livro. Chega a minha vez. O homem que me atendeu parecia novato nas lides de confirmação de vistos e reconhecimento de fotografias. Vem uma colega para socorrê-lo e apressar a minha saída do aeroporto. Ela olha para o meu passaporte angolano. Se o passaporte é angolano significa que sou de Angola. E se sou de Angola falo português. A dita cuja olha para mim e diz-me num sotaque horroroso: "Good morning, where are you coming from?". Olhei para ela com ar de espanto, especialmente depois de a ter visto mirar com atenção o documento que me permite viajar sempre que quero. Contra-interroguei: "Porque é que está a falar comigo em inglês? Eu falo português!". Ela tornou a olhar para o meu passaporte - sim, vinha lá escrito República Popular de Angola - e deu-me uma resposta bastante inteligente: "Ah é que nunca se sabe."
Diante disto, não existiam argumentos que me valessem.

Tuesday, September 14, 2010

Na prateleira

Ontem ao deitar-me, olhei para a minha mesinha-de-cabeceira improvisada e dei conta que ao lado do computador se encontravam, como que abandonados, alguns livros à espera de leitura. Já leio um deles a passo de caracol e surpreendo-me por assim ser visto que se trata de "O amor em tempos de cólera" do Gabriel G. Marquéz que é um dos meus escritores favoritos. O livro é um clássico sim, mas por algum motivo, o mundo sonhado por Marquéz não me arrastou para outros mundos ao meu alcance, não me conduziu a nenhuma aventura de descoberta e para ser franca...bem...acho o livro um tanto aborrecido. É a primeira vez que me aborreço com um livro da sua autoria mas o que fazer? Em compensação, sou capaz de oferecer o meu reino pela compra de "Cem anos de solidão", apenas para reler sempre que der na gana e para ter o tesouro à mão de semear.
Tenho para ler "De profundis" de Oscar Wilde, "A conspiração contra a América" (não me lembro do nome do autor), "O amor é fodido" de Miguel Esteves Cardoso, "A revolução francesa vol. 2" - porque vejam lá, em plena livraria no centro do Recife vi o livro e decidi comprá-lo e já agora comprar o vol.1 porque há que dar um sentido às coisas, mas como não havia tive de levar a "sequela" assim mesmo - e acabar de ler "O livro negro da condição das mulheres" de Christine Ockrent que repousa há um ano e meio longe dos meus olhos ávidos. E mais dois ou três livros que me foram oferecidos por um belo amigo, funcionário de uma livraria lá na PT.
Lembro-me que a última vez que lá estive, percorremos as estações de metro e pequenas livrarias que tinham mini feiras do livro, em busca de livros interessantes e a preço da chuva. Diante da minha queda para os autores do costume, o M. deu-me um raspanete dizendo-me que estava na altura de ser mais culta e ousada. Que ele me desse um raspanete por ser pouco ousada tudo bem, mas pouco culta? Barfe. Passada a minha indignação inicial pus-me a pensar e que raios, o gajo estava certo. Acontece-me o mesmo com a música. Giro sempre em torno do mesmo e até quebrar a resistência ao novo, levo algum tempo. De maneira que quando voltar à pátria, tenciono mergulhar no palavreado de autores desconhecidos e paralelamente comprar alguns clássicos. É evidente que os clássicos não passarão por obras de Saramago e Kafka porque sinceramente...huh...nada a ver comigo.
Ah mas esperem lá. Isto tudo para dizer que a televisão por cabo com os seus canais da Fox, AXN, TVC e respectivas séries levam-me à loucura. Acresente-se a internet que se entranha em mim qual possessão merecedora de exorcismo de preferência feito por algum iluminado. Resultado: amo os livros mas deixo-os à mercê do pó. É triste mas é mais fácil atirar-me para o sofá e anestesiar a mente com personagens a cores e histórias de médicos tarados e bonzões do que ficar em sossego a ler. Suponho que é o preço a pagar por viver na era high tech.

Never mind the rain...


Monday, September 13, 2010

Brasil

Volto ao blogue para escrever sobre as minhas poucas viagens pelo mundo e quero começar pelo Brasil. Primeiro porque revi uma grande amiga brasileira que conheci em Portugal, depois porque conheci gente maravilhosa originária deste país e por fim mas não menos importante, achei o Brasil um país lindíssimo e as pessoas bastante afáveis.
Tive a sorte, ou por outra, escolhi aterrar no Rio de Janeiro em vez de São Paulo por questões práticas e foi o melhor que fiz. Os primeiros dias que passei lá (antes de embarcar para o Chile) foram uma coisa surreal! As panorâmica da cidade é de cortar o fôlego...aquele mar, aquele céu azul, a comida, a vista panorâmica do Morro da Urca, o encontro com um colega e agora amigo do Global Voices, o reencontro com o meu amigo Pedro que anda a viajar pelo mundo e a hospitalidade das pessoas são aspectos que não posso esquecer.
Quando aterrei no Galeão, tinha o Diego e a família dele à minha espera. Super simpáticos, convidaram-me a ficar em casa deles durante os três dias. Deram-me dormida, comida e atenção. Diziam-me sempre, "a nossa casa é como coração de mãe, cabe sempre mais um."
Foi o Diego, baiano de gema, que me apresentou ao Rio. Por estar de passagem no RJ, ele não conhecia assim tão bem a cidade, mas isso não o impediu de me levar a passear, de passar os dias inteiros com esta que vos escreve. Ora sorrindo, cantando ou arfando comigo devido às altas temperaturas.
Bebi água de côco (é assim que se escreve, senhores?) no calçadão. Abracei a estátua de Drummond de Andrade como se estivesse viva, comprei havaianas porque os all-star davam-me escaldões de tanto andar e curti. Curti e aproveitei como se o dia fosse terminar no dia seguinte.
Passados os três dias, eu e Diego fomos para o Chile. Ele estava super entusiasmado e eu também claro, mas eu já estava em clima de férias há mais de um mês, além de não estar particularmente excitada por ter de apanhar dois aviões para chegar a Santiago. A minha estadia no Chile ficará para outra altura pois não quero fazer aqui um testamento de duas páginas.
Uma semana depois de regresso ao Brasil, passei mais um dia no RJ e agastada com o número de aviões que já tinha apanhado no espaço de semana e meia, decidi ir para Recife de camioneta (ônibus). No Recife ou Hellcife como diz um amigo meu natural daquela cidade, reencontrei a Isabella. Amiga de há alguns anos que vivera em Lisboa durante alguns anos e que regressara ao Brasil por um amor "made online".
A viagem por terra durou quase três dias e graças a esta minha decisão pude ver o Brasil de perto e constatar o que já sabia..que o Brasil é de facto um país lindo de morrer! Foi uma viagem solitária mas enriquecedora eu diria. E ao contrário da minha natureza, não tive problemas em almoçar sozinha nas paragens que fazíamos e em circular na minha própria companhia.
Mas como dizia, fiz Rio de Janeiro/S. Salvador da Bahia. À hora que fui comprar o bilhete não havia ligações directas para o Recife mas não me importei. Estava com espírito de viajante e contava chegar à Bahia, comprar o bilhete para Recife e seguir viagem no mesmo dia. Mas o deus dos navegantes devia estar a olhar por mim e vendo-me impossibilitada de seguir viagem nessa mesma noite (em que cheguei à Bahia) porque a camioneta já tinha zarpado, vi-me obrigada a comprar bilhete para o dia seguinte.
Chegar à noite a um destino desconhecido e sem ninguém à espera é complicado. Sendo mulher e estrangeira pior ainda. Felizmente, o meu anjo-da-guarda olhava por mim e a ajuda veio sob a forma do motorista da camioneta que me levara para SSB. Ele chamou um carregador de malas e disse-lhe para me levar ao hotel-do-qual-já-não-me-recordo-o-nome. O dito hotel ficava a cinco minutos a pé da estação rodoviária e desconfiada como sempre, fixei ao máximo as características do meu carregador, não fosse o diabo tecê-las. Só baixei a guarda quando ele mostrou-me o crachá que trazia ao peito com a identificação.
Bom, chegada ao hotel, atirei-me para a cama, acendi o televisor, tomei banho, comi e desmaiei de cansaço. No dia seguinte, após checar emails e garantir o meu bem-estar aos amigos brasileiros que me chamaram de doida por me enfiar nessas estradas de meu Deus (parece que as estradas brasileiras são do pior...totalmente inseguras...mas eu venho de Portugal e Angola onde as estradas podem ser igualmente consideradas merdosas), segui finalmente rumo ao Recife onde a Isabella me aguardava de braços abertos.
Não gostei do Recife de jeito nenhum!!!! Para começar, o calor é de cortar à faca e como bem sabem, odeio o calor! Depois, pouco ou nada fazia porque a Isabella passava os dias na faculdade e no trabalho. E finalmente, achei a cidade feia para burro. O que me salvou foram os nossos passeios a Olinda e Porto de Galinhas. Oh que sítios maravilhosos. Ideiais para umas férias de sonho ou lua-de-mel de sonho!!
Depois de duas semanas e poucos dias no Recife, voltei ao Rio de Janeiro a pedido de uma boa amiga do Global Voices e também porque estava a dar em doida na pasmaceira que é o Recife (sim, eu sei que é uma cidade super cultural, mas o provincianismo dos recifenses é assustador).
Mas voltando à vaca fria..voltei ao Rio, desta vez de avião, onde viajei com a Elba-cada-vez-mais-velha-e-esquisita-Ramalho, onde passei os meus últimos quatro dias antes de regressar a esta terra poeirenta conhecida como Angola. Fiquei na Urca em casa da Debs, onde claro, fui super bem recebida por ela, a mãe e o gato a quem só pus a vista em cima, três dias depois. Ela levou-me a passear pela Urca, pelo calçadão, fomos a um boteco onde se ouvia samba ao vivo e cujo dono recebia frequentemente clientes angolanos, fui a restaurantes de boa comida e enchi a alma de alegria e prazer.
E foi assim a minha passagem por esse belo Brasil. Senti-me parcialmente em casa. Fui bem recebida e fiz boas amizades. Espero um dia puder voltar...

Regresso

Bom, graças ao comentário da Lu, resolvi manter o blogue e comprometi-me a actualizar este espaço com mais frequência. Os motivos para a minha ausência devem-se essencialmente ao uso exagerado que faço do facebook, à falta de inspiração e aos poucos visitantes que aparentemente recebo por aqui. Embora confesse que quando decidi criar o blogue estivesse a pensar exclusivamente em mim e não em quem pudesse dar de caras com este meu Voo Nocturno.
Explicações à parte eis-me de volta! Obrigada Lu e Luciano.

Tuesday, July 27, 2010

E entretanto, aqui vai uma notícia em primeira mão. Tenho sérias dificuldades em assumir compromissos com o sexo oposto. Razões? Só uma. Mas demasiado pessoal para expô-la no blogue. Mas digo-vos, só com terapia é que vou aos eixos. Pelo menos é o que me dizem. Como esses tratamentos do foro psíquico são demasiado caros, vou tentar consertar-me através do livro "A profecia celestina" de James Redfield.

Decisões sacadas a ferros

Sou uma mulher que sofre com a ansiedade e cuja impaciência lhe corrói as entranhas. Não sei esperar. A espera causa-me brotoeja. Conheci um rapaz (é o que prefiro chamar aos homens, sei lá porquê). E como estou altamente interessada nele e também aqui, sei lá porquê, desta vez vou fazer tudo ao contrário. Vou domar o coração, o interesse, vou obliterar os delírios e sossegar a alma que como sempre já está pronta para a descolagem. Que coisa patética, diz o diabinho dentro de mim. Quando tiver com tudo assentado, pego no telefone e ligo para ele.

Friday, June 18, 2010

Viajar, viajar

Quero conhecer o mundo. Quero conhecer gente diferente. Pessoas de outras culturas. Descobri que grande parte da minha realização pessoal passa por viajar. Quando me desloco para outro mundo, deste mundo em que vivemos, sinto um prazer inigualável. Algo que mexe com as minhas entranhas, me apazigua o coração e que me abre a cabeça ao meio. Como se um terramoto de baixas porporções me rachasse, me deixasse partida aos bocados e me atirasse para um abismo sem fundo. É um prazer dos diabos!
Mais do que nunca, sinto-me uma cidadão do mundo. Sinto-me parte integrante da humanidade e por mais que tentasse, não conseguiria descrever em palavras o que significa para mim ser uma cidadã do mundo.
Sou uma iniciante nesta coisa das viajens. Ainda só conheço Moçambique (Maputo, Inhaca, Inhambane), África do Sul (Nelspritt), Israel (Tel Aviv, Jerusalém, Haifa e outras), fora Portugal (nem vale a pena colocar as cidades que conheço já que são tantas), Espanha (Corunha, Mérida), Chile (Santiago do Chile) e Brasil (Rio de Janeiro, Recife). E claro, Angola. Para alguns podem ser muitas cidades, mas conheço quem já conheça mais de 30 países...wow! Quem me dera!
Gostava de conhecer Inglaterra (meu sonho, by the way), França (Paris), Itália (Roma), EUA (Nova-Iorque e Nova Orleães) e a Suécia. Bom, o que eu queria mesmo era conhecer o mundo todo, mas não conseguiria ficar dentro de um avião por mais de 8 horas. Tenho a certeza que iria surtar dentro do aparelho. A menos que emborcasse umas garrafas de vinho para dormir durante o voo todo. Resumindo, ir para a Ásia parece-me inviável, a menos que me paguem. De qualquer forma, não tenho muita curiosidade pelos países asiáticos. E pelos africanos muito menos. Tirando o Malawi, Quénia, Egipto (quem me dera conhecer a biblioteca de Alexandria), Namíbia, Cabo-Verde, São Tomé e Princípe.
O mundo é tão grande e existe tanta gente nesta vida que parece-me uma patetice estarmos sempre rodeados pelas mesmas pessoas ou sempre no mesmo sítio. Neste nosso planeta globalizado, torna-se praticamente imperioso trocarmos ideias com seres de outros países. É quase vital que conheçamos outras culturas, outros ensinamentos por forma a exercermos a tolerância.
Além disso, é ótimo conhecermos pessoas de outros países. É sempre uma casa que teremos quando nos deslocamos para fora da nossa. Fora que enquanto viajamos, muitas coisas podem acontecer como encontros de primeiro grau ou oportunidades nunca antes sonhadas.
Passei o mês passado no Brasil, com um intervalo de seis dias no Chile, mais concretamente, na capital. Foi um mês intensivo, com muita correria, muita informação e muita gente especial que ficará na minha vida, enquanto tiver que ser.
Os chilenos são super simpáticos, a cidade é antiga, bonita e talhada pelas revoluções. É verdade que é suja, mas tem um encanto muito próprio. A comida é barata e farta e o bom café é difícil de encontrar. O convívio com a malta do Global Voices foi extasiante. Pena que o tempo foi curto e era tanta gente que ficou difícil comunicar com todo o mundo.
O hotel era porreiro e as camas eram o sonho de qualquer cidadão de bem. Bastava-me deitar a cabeça na almofada e sentir a qualidade do colchão e dos edredons para me encontrar com Morfeu em menos de um minuto. O pequeno-almoço era uma delícia com direito a frutas, pães de várias qualidades, chás, e sei lá mais o quê. O único senão era a internet. Uma lástima, mas era de se esperar já que erámos mais de cem a querer acessar a net ao mesmo tempo.
Do hotel seguíamos de metro para a Biblioteca Nacional de Santiago, onde decorreu o summit. E ali passávamos os dias em open sessions, breaks para o café ou para o almoço. Tal como disse, foram dias muito intensos e interessantes, totalmente recheados de informação.
Eu andava com o grupo lusófono, por razões óbvias, mas ainda troquei alguns dedos de conversa com pessoas de outros países não-lusófonos.
A chegada ao Chile é que foi um stress (reparem que deixei para o final, o início da viagem aquele país). Após 3 dias no maravilhoso Rio de Janeiro segui com Diego-fuefo-Casaes, para Santiago. Apanhámos dois aviões da companhia aérea Pluna, de modo que parámos primeiro o Uruguai e lá encontrámos outro membro do Global Voices e com ele seguimos para Santiago. Este segundo avião ou esta segunda viagem é que foi fueda.
Era de noite e às tantas o avião começou a sacudir. O americano xuxuco que ia ao meu lado e que comigo meteu conversa, disse-me que estávamos a sobrevoar a cordilheira dos Andes e que era normal tanta turbulência. Foi a primeira vez que senti tanta turbulência e mesmo sem querer, só me vinham imagens do avião a espetar-se contra a tal da cordilheira. De repente lembrei-me de olhar para o lado e vi uma imagem que tranquilizou-me. Os meus dois colegas do GV a tagarelavam tranquilamemente, alheios aos sacolejos do velho aparelho da Pluna. Ao vê-los acalmei-me por segundos mas depois, o meu coração voltou para os braços da inquietude e senti a morte a querer dar-me um abraço forte.
O tal do americano-acabado-de-conhecer bem que me podia ter abraçado, mas não. Também ele se deixou aterrorizar. Felizmente a maldita turbulência acabou e eu pude enfim respirar aliviada e voltar à conversa com o americano-suposto-traficante-de drogas-ou-de-mulheres (digo eu, porque qualquer coisa ali não batia bem).
E esta é a primeira parte das minhas aventuras pela América Latina. A segunda parte virá dentro de alguns dias...

Wednesday, June 16, 2010

I am special...

Estou feliz. Passei quase duas horas na conversa com outro ser humano. Ele disse que sente saudades minhas e eu claro, senti-me bem por ouvir isso. Significa que tenho feito escolhas certas no que toca à inclusão de novos amigos no meu círculo de amizades. Significa que sou boa pessoa e que cuido e estimo aqueles que amo.
Não estava à espera desta afirmação e por isso fiquei surpreendida. Não quero parecer narcisista mas, se existem tantas pessoas a dizerem-me que sentem saudades minhas, que ficam felizes quando conquisto alguma coisa ou que não se imaginam sem mim, então é porque ando a fazer bem as coisas. E se consigo fazer com que pessoas especiais me apreciem, então isso faz de mim igualmente especial. E assim vou crescendo e assim percebo que devo ter um bom coração...
E assim ganhei a semana inteira e um largo sorriso no rosto!

Friday, April 30, 2010

Inutilidade à vista

Por aqui se vê o estado para onde caminha este país e isto vi eu, ninguém me contou. Os ministros da agricultura e do urbanismo e construção deram o ar da sua graça no Waco Cungo (ou antiga Cela para o saudosos) e eis que num arroubo de vã consciência e de mostra de trabalho, o admnistrador municipal daquela terra, resolve no dia da chegada dos mesmos, contratar gente para tapar os buracos da estrada para o aeroporto! Sei lá eu há quanto tempo estavam ali os buracos, mas isto é uma coisa fantástica, não é?!
O que custa a crer nisto tudo, é que a bela cidade do Waco está largada às urtigas apesar de ser um dos munícipios mais ricos do país. Há coisas fantásticas, não há?

Tuesday, March 30, 2010

Parece que a Vogue recusa-se a fazer um trabalho com a Gabourey Sidibe (actriz fenomenal que fez o filme Precious) porque ela está com peso a mais. E também porque aparentemente a revista não teria roupa grande o suficiente para vestir a jovem actriz.
Entre outras coisas, durante a cerimónia dos Óscares fizeram-se comentários indelicados ao vestido que Sidibe levava. Diziam que ela não tinha levado um vestido e sim uma tenda.
Que a rapariga está com excesso de peso, dá para ver de longe e até por uma questão de saúde, ela deveria perder alguns quilos. Mas só por uma questão de saúde e não por vaidade. Muito menos para evitar os comentários ridículos e fúteis de quem gere a Vogue ou de pessoas acéfalas e fúteis que gastam provavelmente rios de dinheiro em cirurgias e em botox para se transformarem em monstros em seguida. Como o caso da Jocelyn Wildenstein que para agradar o marido e manter viva a chama do casamento resolveu transformar-se no animal preferido do marido: um tigre. Escusado será dizer que a mulher parece uma besta fera de tão horrível que está.
Este mundo em que vivemos enfurece-me sobremaneira. Esta futilidade pavorosa, estes pseudo-conceitos de beleza absolutamente nojentos, esta mania de criticar mulheres acima do peso deixa-me com os cabelos em pé!
A Donatella Versace parece um esqueleto tostado ambulante com beiças de gorila, provavelmente para se encaixar no mundo em que se move e no entanto aceita-se mais facilmente a sua imagem ridícula do que o peso extra da Gaboury Sidibe.
É este o tal do século 21? Onde estão os iluminados? Onde estão os valores que deviam reger esta humanidade? Onde está a vontade de evoluir e de viver com o coração?
Bem sei que é um lugar comum, mas porque é que se valoriza tanto o excesso de peso? Porque razão já ninguém se importa com o coração ou o espírito do próximo? Quando foi que nos agarramos à carniça da imagem e decidimos que isso é o que mais conta nesta vida?
Porque é que uma velha de setenta e tal anos usa corpete há mais de vinte para ter uma cintura igual à da boneca Barbie? Foi para isso que as feministas queimaram o soutien em plena praça pública?

Estado de graça

Hoje li que o Ricky Martin decidiu assumir a sua homossexualidade. A opção sexual deste latino lindo de morrer, não me interessa rigorosamente nada, o que me chamou a atenção foi a forma como ele se assumiu, ou melhor a forma como passou para o "papel" o que lhe ia na alma. Ou por outra, como se sente em relação a esta declaração.
Diz ele que precisou libertar-se de vários medos, de passar por várias experiências para conseguir chegar ao sítio onde está hoje. Para sentir-se um ser humano feliz com ele próprio e com o ambiente que o rodeia. Em suma, ele cresceu. Deu um passo evolutivo de grande importância e sabe-o. Sente-se iluminado e bem com ele próprio e é por sentir-se bem que está alheio ao que possam pensar dele.
Quando se atinge este patamar, a sensação é boa. Quase como se tivessemos acabado de cumprir uma tarefa e agora nos sentassemos à sombra da bananeira a colher os frutos. É como se tivessemos dado uma série de passos que nos conduzem para este estado de espírito. Como se tivessemos enfrentado tormentas ou a ira de Zeus, sabendo ou apenas desconfiando que a praia e a bonança se encontram lá mais à frente.
Já me senti assim várias vezes. E acho que é assim que me sinto ultimamente. Tranquila. Em paz comigo e apenas comigo. Parece-me que descobri o meu lugar no mundo, embora ainda não saiba que mundo é esse. Se Luanda, Lisboa, Reino Unido ou Estocolmo.
É evidente que de vez em quando sou sobressaltada por dúvidas e sonhos por completar mas no geral, a minha alma está bem. Devem ser os 30. Devem ser as experiências negras que passei lá atrás, numa outra vida em que os ciclos se fechavam em si mesmos e mal tinha ar para respirar.
Talvez seja a maturidade. Ou a consciência que um ciclo de cultivo se fecha diante destes meus 33 anos e que um de colheitas, se aproxima sem que sinta receio ou ansiedade. E esta sensação quase palpável traz segurança e agilidade no caminhar, ainda que a estrada vá ser irregular como em quase todas as caminhadas.
É maravilhoso estar neste estado de graça. Sinto-me capaz de abraçar gigantes, de escalar os Himalaias, de entrar sem medo num avião, de dizer que sim a uma futura união amorosa, de assumir que pelo menos um filho, pretendo ter...
Sinto-me forte o suficiente para desafiar Hércules, para decifrar Nietsche, para seguir em frente de cabeça erguida e peito inchado.

Sossego


Tuesday, March 23, 2010

Os americanos são estúpidos ou quê??

Cada vez me convenço mais que os americanos são um povo estúpido e que devem muito à inteligência. Tiro essa prova nos programas de reality show que tanto saciam o cérebro oco e desprovido de bom senso que a maioria dos americanos demonstra sem qualquer pudor.
E eis a prova: um miúdo de 11 anos chamado Jordan Brown não foi de modas e matou a madrasta, grávida de oito meses com um tiro na nuca enquanto esta dormia. Em seguida, apanhou o autocarro escolar e dirigiu-se à escola como se nada tivesse acontecido. O facto do imberbe ter assassinado a madrasta e ter revelado sangue-frio para os seus 11 anos, já é de si chocante, mas saber que fora o próprio pai a oferecer-lhe a arma, torna tudo ainda mais chocante e deixa-me com um grande ponto de interrogação na cabeça.
A arma foi desenhada especialmente para crianças e como tal não precisava de registo ( os americanos são estúpidos, ou quê?), o pai costumava caçar com o filho, cada um com a sua arma, logo o puto sabia manejar a arma (os americanos são estúpidos ou quê?) e o estado americano decidiu condenar o puto a prisão perpétua.
Apesar de concordar com a pena e de achá-la pesadissíma, penso que isto se torna a consequência de uma política de porte de armas absolutamente ridícula mas recebida de bom grado pelo estúpido povo americano. Grande parte da população enaltece esta política e só se sente segura com uma ou várias armas dentro de casa. Em parte percebe-se porque se há coisa que infesta os EUA são os assassinos em série que crescem como cogumelos e matam sem piedade. No entanto, acho rídiculo que se mantenha esta "tradição" e esta forma de protecção.
Jordan Brown tem 11 anos e pergunta-se se ele sabe o que fez. Se tem consciência que ceifou uma vida. É claro que tem! Com 11 anos ele sabe a diferença entre o certo e o errado. Ele matava animais, for God sake, é óbvio que sabe o que é a morte! E de certeza que andou a cozinhar a matança da madrasta durante muito tempo. E de certeza que ficou aliviado por ter feito a madrasta desaparecer do mapa da vida. Se assim não fosse não teria ido sossegado para a escola.
É uma tragédia. E a grande tragédia aqui reside na estupidez de um pai, de um sistema e da incapacidade de ler os sinais que com certeza o miúdo demonstrava.
Lamento apenas pela vítima e pelo bebé por nascer. Se tenho pena do miúdo? Nem um pouco! Se sinto compaixão pelo pai? Nem pensar! Se acho que os americanos são estúpidos? Com certeza!

Friday, March 19, 2010

Destinos

Para este ano adivinha-se mais uma viagem. O universo andou a trabalhar de tal forma que desenha-se no mapa da minha alegria uma visita de 5 dias ao Chile. Até este país sofrer aquele terramoto pavoroso que modificou em milímetros o desenho do planeta Terra e matou um sem número de gente, estava entusiasmadissíma! Continuo entusiasmada mas sem o "issíma", claro! A esta altura preferia que mudassem o encontro para um país qualquer na Europa (dava jeito em termos pessoais) ou até mesmo para a terra dos ignorantes, os Estados Unidos da América.
Mas a agenda mantém-se e eis que os chilenos terão a oportunidade de receber esta beleza africana que terá de passar horas e horas dentro de um avião. Já sabem que andar no pássaro de metal é uma chatice para mim. Tudo bem, as estatísticas dizem que é o meio de transporte mais seguro do mundo, mas a verdade é que estar nas nuvens físicamente, causa-me um desconforto assaz irracional. Dormir em pleno ar é impensável e comer torna-se uma alegria mesmo que me sirvam pescada sem sabor e legumes esverdeados demais!
Mas enfim, lá terei de ir conhecer o Chile (e tal como Israel, foi coisa nunca antes sonhada) e conhecer uma série de gente vinda dos quatro cantos do mundo. É a globalização na sua melhor forma e a vontade de ir com o coração aberto. E melhor que tudo, é o desejo de estabelecer conversas com gente aparentemente inteligente e de todas as cores e feitios.
De lá pretendo seguir para o Brasil, país de belezas desconcertantes e onde nasceu o meu amado Reynaldo Gianechinni. Não terei certamente a sorte de o encontrar mas em compensação, cairei nos braços da minha amiga Isabella que anseia por mim, como eu anseio por uma cervejinha gelada num dia de muito calor.
Ela mora no Recife que fica a dois passos de terreolas paradisíacas. Então, a minha cabeça está a mil à hora com mais esta surpresa que o universo me preparou. Sou uma sortuda, eu sei. Mas mereço. Mereço porque já penei muito nesta vida e é chegada a hora de colher os louros!

Wednesday, March 17, 2010

O texto do desanuvio

Pois é meus estimados seguidores deste-blogue-atirado-às-urtigas-do-esquecimento, voltei! Foi preciso visitar um blogue alheio de uma pessoa incrivelmente bipolar para sacudir a poeira dos dedos e retomar a escrita neste meu espaço-quase-diário. A culpa é do facebook, sabem? Ando viciada naquela coisa. Tenho lá os amigos todos e gasto boa parte da minha criatividade naquela página.
Bom, a vida tem seguido o seu curso. Algumas novidades materiais, projectos de viagem e o mesmo marasmo emocional que me provoca comichão em dias de solidão infernal. As conversas com o meu pardalito (credo) prosseguem. A relação também parece prosseguir embora a passo de caracol. Não se entusiasmem, não passa de uma relação platónica, daquelas à moda antiga, percebem? Estou fadada para merdas desse género, não há volta a dar. De vez em quando ganho asas e voo como uma águia em sonhos de encantar, sobre as nuvens e atravesso mares. São bons esses voos. A chatice é quando regresso à realidade ou quando me distraio com outros pardalitos (duplo credo).
É preciso dizer que não sou de ferro e que de vez em quando ganho sangue na guelra. Ao fim e ao cabo nem sempre consigo ganhar asas ou nem sempre o pardalito me diz o que quero ouvir. Já muito faz ele ao chilrear-me ao ouvido frases como, "espero que me mantenhas na tua vida". E isto é assim, eu bem tento mantê-lo, atiro-lhe migalhas gordas e tudo, mas o passareco não alinha na isca e só age quando lhe dá na cabeça. De maneira que cheguei à conclusão que os nossos relógios andam em sentido contrário. Algumas vezes atingimos a mesma hora juntos e outras vezes, só me apetece montar-lhe uma armadilha e vê-lo ser comido por falcões, águias e outras aves de grande porte.
Todo este texto está a girar à volta do meu pardaleco e está repleto de metáforas absurdas mas foi para isto que me deu hoje.
Durante esta minha ausência do blogue e em conversas com o passareco, cheguei a uma conclusão interessante. As palavras valem pelo que são. Do que me adianta estar a tentar decifrar cada palavra, cada frase da criatura? Sabem o que significa isto? It means i´m going fucking insane! Oh eu sei que Freud explica, eu também explicaria mas reluto em debruçar-me sobre a teoria porque sei que no final estaria de rastos e pronta a meter-me num convento de freiras.
E pronto. A vida segue mansamente ao contrário do meu imberbe coração que tanto atinge picos de êxtase como de calmaria. É isso, navego num mar sem remos.
"I broke the windows out your car but no, it didn´t mend my broken heart!"

Tuesday, January 5, 2010

Contra a corrente

Minha gente, antes de mais, quero desejar um 2010 repleto de prosperidade e saúde para todos! Esperemos que seja possível e entretanto, gostava de deixar aqui a minha opinião sobre a chegada de mais um ano. Não quero parecer pessimista mas vejamos as coisas com olhos de ver, ok?
O que muda nas nossas vidas a chegada de um novo ano? Nada. Tudo bem, enchemo-nos de esperança e esperamos mantê-la até ao final do 365º dia do ano, mas todos sabemos que é praticamente impossível manter a vela da esperança acesa. Porque há dias em que só apetece chorar, desesperar e mandar tudo à fava.
Tentamos não cometer os mesmos erros. É justo mas se não cometermos os mesmos erros, iremos cometer outros, com certeza. Com nós mesmos ou com alguma decisão que nos parecia acertada na altura. E isto é certinho, porque somos humanos e errar faz parte de condição humana. Erramos até morrermos de velhice. O que acontece é que se calhar, com a idade ou experiência, aprendemos a minimizar os erros.
A chegada de um novo ano é apenas a chegada de mais um dia. Em que ao acordar partimos do zero em direcção às coisas que queremos realizar. Mas nada muda. Nada muda no mundo e nada muda dentro de nós. A mudança interior requer tempo e consciência.
Porque nos enchemos de alegria e esperança? Porque assumimos que o novo ano é como um livro em branco, pronto a ser reescrito? Porque traçamos resoluções para uma data que não existe? Existem apenas dias e horas. E vivemos dentro delas. Umas vezes com pressa, outras lentamente. Umas vezes sós e outras vezes acompanhados.
Passei as ultimas horas de 2009 e as primeiras horas de 2010 em casa sozinha. Como companhia tinha uma garrafa de Amarula e o comando da televisão. Não vibrei quando ouvi os fogos de artifício e os gritos de alegria que vinham da rua. Não senti um calafrio na espinha, quando o relógio anunciou a chegada do novo ano. Não pensei em resoluções e não reacendi a vela da esperança.
Deixei-me estar esticada no sofá, anestesiada pelos prognósticos do dr. House. De maneira que nessa noite, não fiz votos. Não comi as 12 passas da praxe e não pulei doze vezes em cima do sofá. Estava simplesmente a curtir a minha nova casa e o sossego do qual necessito sempre.
Dizem que sim, que estamos no novo ano. E claro, sou humana e deixo-me contagiar pela alegria dos outros mas pela primeira vez, dou-me conta que é só mais um ano.
E para mim, a felicidade veio às três da manhã quando o telefone tocou e do outro lado da linha estava a minha grande amiga Cátia. Ligou-me de Portugal para dizer que gostava muito de mim e que só faltava eu na festa onde estava. Vão-se os anos e os anéis mas o amor dela por mim está sempre presente....