Thursday, June 11, 2009

Histórias de arrepiar

Na semana passada viajei até ao Waco Cungo a trabalho. É nesta província que está localizado o "lado prático" da companhia onde trabalho. Fui lá recolher informações e falar com algumas pessoas. Tive a sorte de falar com uma colega que faz parte da área social. É uma mulher dinâmica, inteligente, sensível, guerreira e com imensa experiência de vida. Além disso, nota-se que gosta do que faz, porque vive e sofre com a vida das mulheres que ela acompanha diariamente.
O meu trabalho com ela era muito específico, mas à medida que íamos falando, percebi que esta mulher tinha histórias interessantes para partilhar e às tantas decidi alterar o rumo da entrevista e focar-me no trabalho que ela desenvolve ali no Waco.
O trabalho que Glória leva a cabo, envolve unicamente mulheres e crianças. O desempenho das suas funções tem-lhe trazido alegrias, tristezas, frustrações e vitórias. Glória contou-me histórias de arrepiar, como a da mulher que ficou com o rosto amassado depois que o marido, estupidificado pelo vinho, arrastou-a pelos pés e rodou com ela num monte de brita.
Ou da rapariga incapaz de sorrir que todos os dias ia ter com Glória para deixarem-na ir embora da comunidade. Dizia que ou deixavam-na partir ou suicidava-se. Glória perguntava à rapariga porque desejava tanto ir-se embora e se o marido a tratava mal. A rapariga incapaz de sorrir, dizia que estava cansada do Waco e que o marido a tratava bem. Glória não teve outra solução, senão deixá-la partir. A rapariga foi-se embora e o marido sorridente e cheio de si, ficou.
Glória não consegue até hoje, aceitar a partida da rapariga que não consegue sorrir. Mas Glória está apenas à espera de uma oportunidade, que há-de aparecer e quando isso acontecer, vai expulsar o marido ameaçador, daquela comunidade.
A ultima história que ouvi era recente. Um dos homens da comunidade morreu. Não se sabe de quê. Sabe-se apenas que expelia sangue da boca e que morreu no hospital, depois de quase ter partido para a outra vida, sozinho, em casa. A mulher ficou desvairada e com vários filhos nos braços. Os parentes chegaram vindos de longe e trataram de surripiar os bens do casal, antes mesmo do homem ter falecido. Chegaram escudados pela ignorância e ambição a que chamam de tradição e sem meias medidas levaram a televisão, a roupa, os documentos, o cartão do banco do homem, o dinheiro e outras coisas mais.
Glória soube e sem contemplações obrigou-os a devolver tudo, senão chamava a polícia e o assunto resolvia-se atrás das grades. Os familiares insistiam na tradição e Glória insistia na polícia. Tentava proteger a mulher e os filhos do finado, que por pertencerem à nossa empresa, tinham um escudo bem mais forte do que a dita tradição. Os familiares devolveram os pertences e voltaram para o buraco de onde saíram.
E enquanto se desenrolavam estes episódios, a viúva continuava desvairada e era obrigada a cumprir uma outra tradição: a de dormir abraçada e com os lábios colados à boca do marido morto...

3 comments:

jotabloguer said...

Pois Clara, as tradições, as culturas e hábitos ancestrais sempre foram motivos de conflitos! Em sociedades modernas é essa uma das lutas que devemos travar, sem colidir frontalmente com as convicções dos outros, podemos pelo menos tentar travar o obscurantismo...e as histórias que relatas provam isso mesmo. A Glória agiu com sabedoria e firmeza!E tu estás viva nas tuas sensibilidades ao saberes escutar tais situações!
Até mais,
Jorge madureira

Clara said...
This comment has been removed by the author.
Clara said...

Olá Jorge,
existem muitas tradições angolanas que eu não consigo assimilar e aceitar. Mas não só angolanas..existem inúmeras tradições por este mundo fora que estão de facto revestidas pelo obscurantismo. Meu Deus, a ignorância é um terrível!
Abraços