Thursday, September 18, 2008

Auto

32 anos empoleirada à janela da vida sem nada para ver além dos limites da estrada negra que jazia ao fundo da rua.
32 anos sem conceber o amor de ser amada ou de morrer extenuada nos braços do primeiro ladrão de sonhos.
32 anos apodrecida dentro do armário sem portas. Encaixada como marionete entre roupas velhas e esburacadas com cheiro a naftalina.
32 anos orfã de alma e de pais. Criada pela avó rigorosa e de língua afiada que passava por idosa bondosa e paciente com aquela neta que não saía da janela.
32 anos virgem e carente de afagos e objectivos.
32 anos a arranjar coragem para largar a vida de janela e começar a viver como faziam as outras.
32 anos a libertar-se de complexos e tristezas profundas.
32 anos para aprender a sorrir.
E ela agora ri com vigor. Como se a vida começasse aos 32 anos. Sem bagagens pesadas demais e sem pesadelos habitados por monstros de dentes grandes e pele brilhante.

2 comments:

jotabloguer said...

Pois que ria e muito! A Vida recomeça todos os dias! E como é bom vencer essas lutas! Porquê parar?
Viver vale tudo! Estás a visionar um atleta, que treina e corre durante uma série de tempo e nunca sabe que ganhará todas as corridas?
Mesmo sendo campeão? Na Vida é um pouco assim!
Fica bem e sorri... á Vida!
Jorge madureira

Clara said...

Gostei da alusão. É perfeita!