Friday, June 27, 2008

Espiadela ao mundo gay

Hora: 6 da matina
Local: Príncipe Real, Lisboa
Personagens reais: Clara, Sérginho e Lwena
Estado: ébrios

Estamos sentados num banco de madeira no jardim do Príncipe Real. Aguardamos pela abertura de um dos cafés da zona a fim de tomarmos um bom pequeno-almoço.
O meu amigo Sérginho está entre mim e a Lwena. Os pássaros anunciam o novo dia, enquanto cozemos a bebedeira dizendo disparates e fumando erva sem parar.
Convém dizer que o Sérginho é gay e talvez por isso é que lá fomos parar. Á medida que o tempo passa, ele vai girando a cabeça e fazendo sinais aos homens que por ali passam, ao mesmo tempo que vai dizendo "vocês as duas estão dar-me cabo do caldinho". Talvez. Mas estamo-nos nas tintas para isso.
Eu estou pasma. Vivi mais de vinte anos em Lisboa, era frequentadora assídua do Bairro Alto e nunca soube que o Príncipe Real era paragem obrigatória para gays. É ali um dos pontos de partida para uma noite de sexo ou algo mais.
A Lwena vai tentando meter conversa com os pássaros. Entre um chilrear e outro, atira "porra, parece-me que para vocês é mais fácil. É só chegarem aqui e zás. Têm a papa toda feita". Sei bem porque diz aquilo. Não come ninguém há quase um ano e chegou à conclusão que é difícil engatar gajos. A mim parece-me que ela é que não se deixa engatar.
Entretanto, sentou-se um homem no banco à nossa frente. Faz sinais ao meu amigo e ele vai acenando. Começo a achar que a qualquer momento vamos ficar sem Sérginho. Engano-me. O homem levanta-se de repente e vai ter com um outro. Ficam na conversa durante meia-hora.
Vindos não sei onde, chegam cada vez mais homens. Uns sentam-se e outros vão dando voltas ao longo do parque. Registo tudo mentalmente. Estou fascinada com esta porta de entrada para o mundo gay.
Os dois homens levantam-se. A conversa deve ter sido proveitosa porque partem juntos rumo à paragem de táxi. Os táxistas da zona já estão habituados e "muitos deles também páram aqui. E são na sua maioria homens casados e pais de filhos", diz-me o Sérginho. Catano, penso eu. Devo estar com cara de alucinada porque ele olha para mim e desata-se a rir.
Já li inúmeros artigos sobre o mundo gay mas todos nós sabemos que nada melhor do que a vivência. E ali estava eu. A observar in loco a rotação extraordinária de dezenas de homens em busca de prazer e a encher a cabeça com imagens pornográficas.
O Sérginho faz-me voltar à realidade, "devias fazer uma reportagem sobre isto". Ah, pois devia!

4 comments:

manhã said...

para os homens parece ser mais satisfatório emocional e sexualmente uma noite de bom sexo com um desconhecido do que varias noites com a mesma pessoa. terão razão? não serão os nossos hábitos culturais que nos inibem? mas acho que um bocadinho de inibição é que dá picante à coisa.

Voo nocturno said...

Manhã,
acho que sim, que são os nossos hábitos culturais que nos inibem, ou pelo menos, parcialmente. O resto advém do nosso temperamento e qui ça, da presença de alguém que nos faça abandonar as inibições.
Não sei se para os homens é mais satisfatório, mas gostava de saber.
Abraçosxx

Fevereiro said...

Estranhamente, pode ser que seja coincidência, eu tive um amigo chamado Sérginho no liceu, e estou com um feeling que o teu amigo Sérginho e o meu possam ser o mesmo.
Abraços!

Voo nocturno said...

A sério Fevereiro? E onde mora o teu Sérginho?